Depois da campanha para as eleições legislativas, eis-nos com uma nova composição da Assembleia da República (AR) e com um novo governo em funções, o que significa que se retomou a normalidade da governação, embora à data em que escrevo estas linhas não tenha sido ainda aprovada a Lei do Orçamento Geral do Estado, objectivo que, no entanto, será facilmente atingido, em função do apoio das esquerdas que parecem não se importar de caírem em contradições ideológicas e virem a perder apoios como já se verificou.

Como novidade, regista-se uma renovação significativa de deputados e a entrada na AR de tês novos partidos que, representados, embora, por um deputado cada, irão, certamente, aquecer o debate político com novas temáticas de que pouco se tem falado, ou aprofundando outras que causam algum mal-estar e que os partidos históricos evitam introduzir na agenda política por serem incómodas.

Estes partidos tradicionais não fugirão ao nível dos debates mais ou menos escaldantes a que já nos habituaram, e por isso não vale a pena esmiuçar, mas os três estreantes merecem algumas considerações, pela novidade. Apenas diria que o Pan, a respirar a sua segunda vida parlamentar, continuará a entreter-se com os animais que, quando em situações de abandono, deviam ser colocados á sua porta e não sobrecarregar as Câmaras Municipais ou os canis sem meios para os tratar e alimentar.

Do chamado Livre pouco haverá para dizer, a não ser que representa um conjunto de eleitores facilmente identificáveis que alimentam o protesto, e não porque apresentem qualquer nova filosofia política que vise melhorar as condições de desenvolvimento do país. Limita-se a bater em teclas que outros partidos há muito dominam e nada oferece de novo, a não ser um estilo diferente de comunicação que não existia no passado.

Quanto ao Iniciativa Liberal, e pelo que já se viu, também nada nos trouxe de diferente, acontecendo que outros partidos mais representativos têm tido em agenda a temática do neoliberalismo e de tudo quanto lhe está associado. Deste modo, também nada de novo nos apresenta, a menos que no futuro traga descubra algo interessante que possa suscitar o interesse dos cidadãos.
Finalmente, o Chega! Este partido é, sem dúvida, aquele que mais incómodos provoca, tanto entre os deputados dos partidos tradicionais, como entre comentadores políticos e políticos em geral, tendo havido até, na atribuição do seu lugar na AR, forte celeuma, como se o deputado André Ventura tivesse lepra ou fosse um excomungado e os outros deputados uns puros do regime democrático. Na verdade, foi pouco digno o ambiente criado à sua volta e merece, por isso, uma reflexão especial.

Repugna-me supinamente a sobranceria ostentada por muitos políticos e profissionais de imprensa, porque se julgam intocáveis, faltando-lhes aquela dose de humildade que assenta bem no ser humano. É que, se vivemos numa democracia, todos os partidos e seus representantes na AR têm direitos que devem ser respeitados, mesmo aqueles que nada produzem. E o representante do Chega, como qualquer outro, tem direito ao seu lugar na AR para defender as ideias em que acredita. Qual, então, a legitimidade das esquerdas para anatemizar este partido, só porque defende valores a que chamam de direita? Qual a legitimidade de alguns profissionais da imprensa para esmiuçar desavergonhadamente a vida de um cidadão que é deputado, só com a nítida intenção de descobrir factos que possam desacreditá-lo? Será que o deputado do Chega irá comer criancinhas, tal como se dizia do PCP aquando do golpe militar do 25 de Abril de 1974? Penso que não existem quaisquer razões para tanto ódio, porque a sua legitimidade assenta nos votos de milhares de portugueses que têm tanto valor quanto outros.

Cada partido defende os valores em que acredita, com mais ou menos vigor, mas não é a extrema-esquerda nem outras formações similares que podem dar lições a ninguém, porque carecem do substrato moral que lhes falta. Simpatizo muito mais com partidos que defendam o direito à vida, que privilegiem a autoridade e a segurança e que respeitem as leis da natureza, do que com aqueles que defendem o homicídio ou que são muito tolerantes com os criminosos, mas intolerantes com os agentes policiais que protegem as nossas vidas e bens. Afinal o que são o aborto e a eutanásia, senão homicídios? Porque se desprezam e perseguem, até, os agentes das Forças de Segurança e se trata com luvas de lã os delinquentes? Não haverá aqui uma inversão de valores em partidos que fizeram as leis que regulam estas matérias? E que dizer da língua portuguesa? Todos os partidos votaram a sua descaracterização na AR, no governo de Passos Coelho, cedendo ao facilitismo e à preguiça mental, mas só o Chega defende o seu retorno, o que merece o meu aplauso.
Depois, vêm falar de populismo, como se fosse a peste do século, e aponta-se o deputado do Chega como um exemplo desse populismo. Tanto quanto sei, o populismo não constitui nenhum crime, mas evidencia-se como uma forma de fazer política tão aceitável como qualquer outra e, porque se reveste de engenho para cativar cidadãos cansados de mentiras e demagogia, é que se assiste, na Europa e não só, ao seu crescimento acentuado, que, pelos vistos, assusta muita gente. O populismo não passa de um estilo de comunicação e interacção muito próprio, entre líderes políticos e cidadãos, para a obtenção de resultados eleitorais que os possam favorecer. E como procedem os outros agentes políticos que se dizem avessos ao populismo? Não prometem coisas que nunca cumprem quando são poder? Não tentam criar ligações afectivas com os cidadãos através dos beijos, dos abraços, das danças, das ginjinhas e das selfies? Haja decoro e acabe-se com esta hipocrisia!

Quem me conhece sabe que sou militante de um grande partido fundador da nossa democracia, mas não posso aceitar que se crie tanto ódio à volta do Chega e do seu deputado, só porque defende ideias diferentes, algumas delas bem positivas e corajosas, para além de representar o voto de quase setenta mil portugueses.