Em “Crime e Castigo”, diz Dostoieweky: “Para se conhecer uma pessoa é necessário conviver com ela, tê-la observado cuidadosamente”.

Dificilmente, digo eu, se conhece verdadeiramente seja quem for, mesmo o nosso conjugue, porque há segredos bem guardados, nunca revelados, hábitos e vícios, pensamentos doentios e desejos escondidos.

Bem dizia Raul Brandão, em: “Humus”: “Em todas as almas há um interior escondido”.

Há quem saiba encobrir com tanta perfeição, quem engane, com atenções que parecem sinceras, que ingenuamente acreditamos. Decorrido meses (anos?) é que descortinamos, atónitos, as dissimulações.

Já Goeth, em: “Werther”, advertia: “Não é fácil uma criatura entender outra”.

Fui amigo íntimo de condiscípulo. Trocávamos confidencias e, em conjunto, realizamos aprazíveis passeatas.

Bastou noivar com moça licenciada, da “alta”, para se afastar.

Encontrei-o, um dia, acompanhado da mocinha, jovem graciosa, de boas famílias.

Aproximei-me. Para meu espanto, disfarçou e continuou seu caminho.

Razões? Desconheço. Acanhamento? Vaidade? Talvez orgulho.

Muitos que se declaram nossos amigos, e os consideramos como tal, surpreendem-nos pelas atitudes e comportamentos, mormente após terem recebido benesses nossas.

Pensam lá consigo: “já não preciso dele para nada”. Estou servido.

É falta de carácter e ingratidão. Admiramo-nos, então, como conseguiram enganar-nos. 

Bem observou Goethe: “Cada dia vou notando que é tolice avaliar os outros por nós”.

É tolice e é errado, porque pensamos que os outros são honestos e sinceros – como nós, – e não procuram amizade com segundas intenções.

Como andamos, quantas vezes, enganados.