A minha resposta a esta pergunta é simples, precisa e concisa (perdoem-me a imodéstia): sim, os padres católicos e outros clérigos, obrigatoriamente celibatários, são vítimas também da sua situação de solidão e desamparo afetivo. Embora a ciência sustente que a pedofilia é transversal a várias situações relacionais – de celibato ou não – e ser uma “inclinação” psíquica incurável, parece ser possível manter essa fragilidade humana sem se manifestar violentamente, com base num acompanhamento regular especializado e – acrescento eu – desde que os pedófilos tenham inteira liberdade de escolha quanto a relações pessoais e, claro, sexuais. Por outras palavras: o fim obrigatório do celibato ou, ainda mais claro, a inteira liberdade de escolha em matéria relacional.

O que rola por aí, em matéria de relações pessoais e sexuais, é uma hipocrisia infame e os Bispos e a Santa Sé sabem disso perfeitamente e há muitos anos. E carrego nos adjetivos porque o fundador do Cristianismo – Jesus Cristo – tendo querido, ou não, criar uma igreja meticulosamente estruturada ou apenas uma comunidade informal de fiéis e seguidores da sua doutrina, compreendeu todas as fraquezas humanas e perdoou todos os erros, menos a hipocrisia e a falsidade. E o que vai por aí é uma chocante velhacaria.

Muita gente acredita que o fim do celibato obrigatório (e sublinho, obrigatório) poderá mitigar este problema da violação de crianças e jovens, com base na possibilidade de um clérigo contrair matrimónio (ou qualquer outra relação estável) e, portanto, passar a dispor do aconchego afetivo e emocional e um acompanhamento amoroso e compreensivo de alguém.  

Estas últimas semanas, igualmente as primeiras do ano de 2022, foram alegremente promissoras para todos os que vêm pensando e agindo (muitas vezes sentindo-se isolados e, tantas outras, proscritos pelos herdeiros do conservadorismo sem sentido, da rigidez mental e da censura estúpida.

Quanto a novidades auspiciosas, vamos, por hoje, falar da maravilhosa e recente entrevista do Cardeal Jean-Claude Hollerich, Arcebispo do Luxemburgo, presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia e Relator-Geral do Sínodo dos Bispos. É um sacerdote Jesuíta, da mesma ordem do Papa Francisco, e foi missionário no Japão, durante vários anos, presumo que companheiro missionário, no Japão, de outro padre Jesuíta português, de nome Jaime Nuno Cepeda Coelho. A propósito, permitam-me esta curiosidade interessante: este padre Jesuíta, natural da aldeia de Soeima (Alfândega da Fé) recebeu uma alta condecoração atribuída pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, atendendo ao facto do Padre Jaime ser autor dos primeiros dicionários das línguas japonesa e portuguesa (Porto Editora). 

Nessa entrevista, o Cardeal Hollerich fala abertamente sobre questões polémicas na Igreja Católica, tais como: a necessária  participação de leigos e de mulheres na mudança da formação do clero; a indispensável mudança na “nossa maneira de ver a sexualidade que foi sempre repressiva” nas palavras do Cardeal; a abertura ao diálogo quanto à vivência dos padres da sua própria sexualidade; “quanto ao celibato e à vida sacerdotal perguntemos francamente se um padre deve necessariamente ser celibatário”; quanto “aos padres homossexuais, e são muitos, seria bom que pudessem falar sobre isso aos seus bispos  sem que estes os condenassem”; sobre o papel dos diáconos casados; sobre as mulheres “devemos parar de agir como se as mulheres fossem um grupo marginal da Igreja”. (Entre aspas estão as citações textuais do Cardeal Hollerich, na entrevista publicada no jornal La Croix Internacional a 29 de janeiro de 2022, a sua tradução no semanário Voz Portucalense e a divulgação da mesma pelo Departamento Arquidiocesano da Comunicação Social de Braga). 

E o que será isso de “Sexo Santo”, um livro publicado pelas Editoras Paulinas, da autoria do americano Gregory K. Popcak? Veremos na próxima crónica.