Na página e meia desta crónica não cabe uma explicação de tamanho razoável sobre a Bíblia, o Velho Testamento, o Pentateuco (5 livros) e nem sequer do Livro do Génesis ou das Origens ou do Nascimento da Humanidade. Diga-se, apenas, que a Bíblia (ou o Livro por excelência) pertence ao Povo Hebraico (povo judeu ou israelita), demorou séculos e séculos a ser escrita, pelo que são inúmeros os seus autores e o Velho Testamento é muito anterior ao nascimento de Jesus Cristo, ele próprio hebreu ou judeu ou israelita. A Bíblia (cristã/católica), que junta o Antigo e o Novo Testamento (este aparece com o nascimento de Jesus Cristo, apenas há dois mil e vinte e um anos) é considerada como livro sagrado, baseado na revelação de um Deus Criador ao ser humano, com vários estilos literários (incluindo poesia e até erotismo), vários autores (como foi dito), mas também é considerada como mitológica (parte da Bíblia: o livro do Génesis, por exemplo), sendo certo que o significado de mito é “o relato fantástico da tradição oral, protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspetos gerais da condição humana” ou “lenda, fábula, mitologia” (Dicionário Houaiss da língua portuguesa). É muito interessante a leitura da Bíblia numa edição que tenha um prólogo explicativo suficientemente extenso (por exemplo, a nova Bíblia dos Capuchinhos, da Difusora Bíblica – a edição que possuo é de 1998 – ou uma recente tradução direta do grego, rigorosa e laica, da Bíblia, ainda incompleta, do Professor Universitário Dr. Frederico Lourenço).

Mas, seja como for, o livro do Génesis refere, logo no primeiro capítulo, a criação divina dos céus e da terra, pois “a terra era informe e vazia e as trevas cobriam o abismo”. Depois criou “dois grandes luzeiros (o Sol e a Lua), o maior para presidir ao dia e o menor à noite”. Depois criou animais e plantas e, só depois, criou o ser humano à sua imagem. “E Ele os criou homem e mulher e os abençoou”. Depois, no capítulo 2, o livro do Génesis acrescenta uma versão um tanto diferente, relatando que primeiro foi criado o homem, o jardim do Éden e só depois a mulher, completando-se esta narrativa com a tentação da serpente, a delicada oferta de uma maçã por Eva ao Adão e, por fim, o castigo: o mundo terreno, até então fertilíssimo e absolutamente inocente (o casal Adão e Eva andava nu e não sentia vergonha) nunca mais seria o mesmo. Ora, logo ao começar a Bíblia, se pode concluir a característica mitológica da mesma. Mitologia por mitologia nenhuma versão pode ser excluída e, muito menos, as teorias científicas do evolucionismo (século XIX) ou quaisquer outras com razoabilidade e respeito pelas crenças alheias.

Sendo assim, não hesito na minha versão da criação da humanidade, mitológica também e poética sobretudo: primeiro que tudo, o Criador (fosse quem fosse ou o que fosse) fez a mulher, um ser de extraordinária beleza, com um molde de ouro que deu aquela esplendorosa imagem à Mulher, e sobre essa figura soprou-lhe a vida. O Criador precisava que alguém, de forte personalidade, de suma bondade, de grande carinho e de uma energia inesgotável tomasse conta do que ele viria a criar depois: o universo sem fim, a luz e as trevas, a água e o pó, os animais de milhentas formas e espécies, o calor e o frio, o vento e a calmaria, as ervas e as árvores, os frutos e os cereais, o tempo e o espaço, a vida e a morte. E o Criador, satisfeito com a sua obra, descansou. Passados alguns tempos, a Mulher achou que merecia um companheiro que a ajudasse nas inúmeras tarefas do seu dia-a-dia, sobretudo nos trabalhos mais rudes. E pediu ao Criador um Homem. E o Criador, depois de torcer o nariz com tão inesperado pedido, lá acedeu ao desejo da Mulher. E voltou a pegar em barro, moldando em areia e às três pancadas, outra figura, mas, desta vez, corpulenta, coberta de espessa camada de pelos, cabeçuda, musculosa que nem caule de carvalho velho, cara triste ou alarve quando gargalhava. Não apresentava os seios da fertilidade, mas, por vezes, exibia um apêndice inofensivo que, de vez em quando, se alongava com propósitos de atacante. No entanto e apesar dessa fealdade, vista com uns olhos doces e um coração terno, a Mulher ficou contente. Ela acabou por concluir que o companheiro era normalmente bruto, mas igualmente prestável. Mas este nunca aceitou ser o segundo da criação humana. (A saga vai continuar).