Sempre tive o maior apreço por Eça de Queiroz, para mim, o maior escritor português de sempre, apesar de gostar também bastante de Camilo Castelo Branco, mas é outro género de escrita. Desde miúdo que leio este magnífico escritor e cada vez mais gosto de o ler. Passados muitos anos em que li praticamente tudo o que escreveu e de ter feito uma verdadeira “romagem” a Baião, à Quinta de Tormes, eis que entrei numa fase de análise mais profunda da sua obra e vida.

Para mim o seu nascimento era quase um tabu. Não se falava muito nisso, teria nascido na Póvoa de Varzim e pouco mais. Mas, aos poucos, comecei a fazer luz sobre o assunto, tanto mais que adquiri novos livros que que muito me ajudaram a aprofundá-lo. Entre vários, comprei o de Maria Filomena Mónica[1], que estou a ler e que, precisamente, começa por falar do seu nascimento. Diz a escritora:         “Era o Outono de 1845. Os dias andavam cheios de grandes chuvas. Uma rapariga, envergando roupas de viagem, saía de uma carruagem na Póvoa de Varzim. Chegara de Viana do Castelo. Quando as contrações começaram, Carolina Augusta, assim se chamava, fora despachada pela mãe, Ana Clementina de Abreu e Castro Pereira d’Eça, para o domicílio de uma tia-avó. Convinha que o parto se realizasse fora do local de residência da família, onde toda a gente gostava de inquirir da vida dos outros. A 25 de Novembro, entre casas brancas e barcos de pesca, nascia José Maria Eça de Queirós.

A criança poderia ter sido entregue na «Roda», a vetusta instituição gerida pela Misericórdia, onde eram depositados os filhos indesejados. Por coincidência, a da Póvoa de Varzim ficava situada mesmo em frente da casa onde o menino viria a nascer, mas Carolina Augusta e o pai da criança, o Dr. José Maria Teixeira de Queirós, quiseram manter o filho. Não era possível, sabiam-no, trazê-lo de volta com eles: nem para Viana, onde vivia Carolina Augusta, nem para Ponte de Lima, onde o Dr. Teixeira de Queirós era delegado do procurador régio.

Nenhuma mãe abandona, de ânimo leve, a criança que acaba de dar à luz. Resignada, regressou ao lar materno (o pai, o coronel José António Pereira d’Eça, já tinha morrido). O menino ficou em Vila do Conde, entregue a uma ama. Esta, oriunda de Pernambuco era filha natural de uma criada que estivera ao serviço do avô paterno da criança, aquando da estada deste no Brasil. Antes de José Maria nascer, já este avô desempenhara um papel crucial na sua vida. A 18 de Novembro de 1845, ou seja, uma semana antes do parto, o pai da criança escrevia a Carolina Augusta, dizendo ter recebido instruções de seu próprio pai, no sentido de ser este a orientar «a criação do meu filho», oferecendo-se «para o mandar criar no Porto, em companhia de minha família, quando a senhora nisto convenha». Informava-a do facto de o desembargador Queirós ter recomendado que, no assento do batismo, se declarasse ser a criança filha de pai conhecido, «sem, todavia, se enunciar o nome da mãe»”[2].

Gostei de saber deste seu atormentado nascimento, que muito vai influenciar a sua vida, como não poderia deixar de ser. Como consta do seu assento de batismo, realizado no dia 1 de dezembro, na Igreja Matriz de Vila do Conde, onde nenhum membro da família esteve presente: «José Maria, filho natural de José Maria de Almeida de Teixeira de Queirós e de mãe incógnita; neto paterno de Joaquim José de Queirós e de sua mulher, D. Teodora Joaquina de Almeida Queirós (…)»[3].  Nunca percebi isto de «mãe incógnita». Vamos lá saber porquê? Ainda hoje é difícil de explicar. Mas, dada a escassez de espaço, não é neste artigo que o tema pode ser tratado. Apenas diremos que a família quer paterna, quer materna de Eça eram famílias muito ligadas ao serviço público. Do lado paterno na magistratura, no materno ao serviço militar. Como referiu a autora, aludindo ao lado materno: «De seguro, apenas se sabe que a família Pereira d’Eça, de Viana do Castelo, fora fundada, no século XVII, por um padre, de seu nome Martinho Pereira d’Eça, e por Isabel Pereira[4]».  Mas a sua infeliz infância incomodava-o muito, como se compreende. Para terminar, não resisto a esta partilha da sua vivência na cidade do Porto, já formado: «Quando o editor Chardron lhe comunicou que ia encomendar, a um literato de Lisboa, a história da sua vida, de tal forma se afligiu que, em desespero de causa, pediu a Ramalho (Ortigão) para ser ele a encarregar-se do trabalho. Em carta de 10 de novembro de 1878, dizia-lhe: «Dados para a minha biografia, não lhos sei dar. Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra.». Respondendo a Ramalho Ortigão, que lhe disse ter sido intimado novamente por Chardron para lhe dar todos os seus dados, Eça disse-lhe: «Que documentos, meu Jesus? Eu só tenho a minha carta de bacharel formado.[5]». Citando novamente a escritora Maria Filomena Mónica: “No fundo, a última coisa que Eça desejava era ter de assistir a «Gervásio Lobato fazendo variações sobre o meu nascimento». O esquadrinhar da sua infância, especialmente por quem, como Gervásio Lobato, com ele tinha ligações familiares, desagradava-lhe[6]. Seja como for, a sua infância iria suscitar uma polémica que durou até hoje[7]”.

Gostei de escrever estas notas para a nossa “A Aurora do Lima”. Queria só dizer-te meu Eça de Queirós: uma coisa ainda me liga a ti, já que a tua mãe, apesar de não ter sido muito correta contigo, era vianesa, o que faz com que grande parte do teu sangue também seja de Viana do Castelo. Bem Hajas por tudo!

 

[1] “Eça de Queirós” de Maria Filomena Mónica, Editora Quetzal, Lisboa, 2001.

[2] -Idem, página 13 e 14.

[3] -Ibidem, página 14.

[4] -Idem, Ibidem, página 17.

[5] – G. de Castilho (org.), Eça de Queirós, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional, 1983, Vol. I, página 162.

[6] – Gervásio Lobato, um folhetinista famoso, era casado com uma prima sua, Maria das Dores Pereira d’Eça e Albuquerque, estando provavelmente a par das circunstâncias que tinham rodeado o seu nascimento.

[7] – Idem, Ibidem, página 19.