É verdade que, em sociedade, quando uma pessoa atinge uma certa idade, tendemos a colocá-la em um único compartimento estanque e homogéneo e com um único rótulo – idoso, velho, pessoa mais velha.

Ao fazer isso, estamos a banir a sua individualidade, única de alguma forma, a apagar a sua trajetória de vida, a sua personalidade e seus objetivos futuros.

Se pensarmos, por um momento, é provavelmente a faixa etária mais heterogénea. O acúmulo de anos, das trajetórias de vida, os caminhos percorridos, são muito diferentes, mas em comum têm um conjunto de adjectivos negativos associados.

O estereótipo pode levar-nos ao preconceito e o preconceito à discriminação, por exemplo, numa ida ao médico acompanhado por outra pessoa, verifica-se que quando está na consulta o médico, para falar sobre o diagnóstico e tratamento da pessoa mais velha dirige-se ao seu acompanhante, assumindo que não vai entender. Situações como esta são vividas por pessoas idosas todos os dias e não apenas neste contexto.

A discriminação divide-nos como sociedade e também nos gera fortes barreiras internas, o idadismo, é um sintoma da invisibilidade no que respeita à gerontofobia, que provoca um medo diário de olhar no espelho e esquecer a grande conquista, que é, estarmos vivos.
Consideramos também, a juventude, como um tesouro divino, todos queremos permanecer jovens, desta forma, este medo da velhice, impede-nos de ver as pessoas mais velhas que temos ao nosso lado hoje, mas abstemo-nos de estar conscientes de que também gera uma falta de empatia pelo nosso próprio futuro.

Hoje, a população com mais de 65 anos responde por 21,3% da nossa sociedade, em 2050 será de mais de 40%, obviamente um desafio social. Temos que ver que a longevidade é um sucesso para qualquer sociedade e, obviamente representa muitos desafios, mas também é verdade que vemos argumentos dramáticos que nos impedem de planear e querer construir um futuro melhor.

O que podemos fazer?
Em primeiro lugar, questionar o estereótipo debatendo todas essas visões que ouvimos sobre as pessoas mais velhas, como a linguagem, falamos de terceira idade, mas não falamos sobre a primeira ou segunda idade, e quando falamos na terceira idade, importa referir que é uma faixa de mais de trinta anos de vida, com muita diversidade; em segundo lugar refletir sobre o processo de envelhecimento, não começamos a envelhecer quando sopramos uma vela aos 65 anos e não começamos a envelhecer quando recebemos a carta da reforma, envelhecemos ao longo da nossa vida, já sabemos que as directrizes de saúde vão afetar o nosso futuro, como vamos envelhecer, mas também os padrões sociais e relacionais que temos; e em terceiro lugar, o reconhecimento, por exemplo, no âmbito do voluntariado em causas sociais que beneficiam a todos nós, ou na garantia do apoio familiar, vital para muitas famílias.

Convido-vos, no início deste novo ano, a ligar o interruptor, para que possamos trazer luz e ver todas as nuances de todas essas pessoas mais velhas que já temos ao nosso lado, mas também para ser capaz de olhar para o futuro e construir uma sociedade com muitas oportunidades e com esperança.

Engrácia Rodrigues

Gerontóloga Social – MAIS VIDA – Centro de Promoção do Envelhecimento Ativo