Que saiba, da minha permanência em Viana do Castelo, tenho um “esqueleto no armário” que ainda hoje, mais de 40 anos passados e pese embora as variadíssimas tentativas para dali o retirar, teima em lá se manter. É nestas situações que a escassez de leitores, do que aqui vou escrevinhando, se torna uma vantagem já que, por isso não serão muitos os que, lendo o que atrás escrevi, exclamarão: Só um ?!!!

Voltando ao que me propus, sucedeu que durante algum tempo acumulei funções com a Capitania do Porto de Caminha o que me obrigava a frequentes deslocações não só a Caminha, como também aos vários postos de fiscalização, instalados desde a foz do rio Minho até à fronteira com Espanha, em S. Gregório.

Umas vezes por esquecimento, outras pelo convencimento de que era suficientemente conhecido em toda a zona e que em caso de necessidade haveria sempre alguém que me ajudaria, não tendo presente o que a sabedoria popular nos lembra que “a vaidade é o alimento dos tolos”, quase sempre não me preocupava em levar dinheiro comigo.  

Num qualquer dia que não recordo qual fosse e que para o caso não tem especial relevo, ao regressar de Caminha para Viana do Castelo o carro, pouco antes de chegar a Vila Praia de Âncora, resolveu avariar recusando – se a prosseguir viagem. Tendo – me dirigido ao primeiro café que encontrei, e como habitualmente sem dinheiro, apesar de referir quem era e o que me sucedera, o proprietário não se mostrou muito receptivo quanto à possibilidade de eu efectuar uma chamada telefónica, no posto público lá instalado, com dinheiro que me emprestaria, negação essa que constituiu uma clara “ machadada” no convencimento que tinha quanto à minha popularidade, “machadada” essa que foi de imediato anulada pelo única pessoa presente que, sem ser interpelada, afirmou : “ O sr. comandante não se preocupe, fique com estes cinco escudos , faz a chamada telefónica que pretende e ainda bebe um café enquanto espera e logo me paga”. 

Fosse porque razão fosse, logo que fiz a chamada a pedir apoio dirigi-me para o local onde se encontrava a viatura avariada aguardando a chegada do pessoal da Capitania, sem cuidar em obter elementos sobre o benfeitor, certo que não seria difícil encontrá-lo. Logo que a situação foi resolvida dirigi-me novamente ao café para efectuar o reembolso da quantia emprestada, quantia essa disponibilizada entretanto por um dos elementos da Capitania. 

Face à ausência, no local, do benfeitor, questionei o dono do café quanto à identidade daquele indivíduo que tão simpaticamente ajudara a resolver a situação em que me encontrara, sendo-me dito então que tal pessoa lhe era totalmente desconhecida e fora aquela a primeira vez que ali entrara

Quer em Viana do Castelo, como em Caminha e Vila Praia de Âncora, fiz saber do episódio ocorrido e do meu interesse em saldar a dívida contraída, não tendo todas as diligências efectuadas, quer por mim, como pelo pessoal das Capitanias e por outras pessoas a quem pedi ajuda, logrado qualquer sucesso.

Sirva esta pública confissão de atenuante ao que o tal desconhecido, e com toda a razão, referirá como um calote que um Capitão do Porto lhe terá pregado …

Carlos Gomes