No momento em que escrevo estas linhas decorrem conversações entre o Primeiro-Ministro, por parte do Partido Socialista, e os restantes partidos, para identificarem pontos comuns nos seus programas, visando a formação de um governo der ampla aceitação popular que possa cumprir a extensão da legislatura, ou seja, quatro anos, com estabilidade garantida.

Apesar dos dissabores que os partidos de esquerda sofreram nestas eleições, vendo diminuir o seu apoio com milhares de votos a menos, assim como deputados (o PCP perdeu 5), não se afigura difícil que o Primeiro-Ministro encontre a solução desejada, porque os partidos que compuseram a geringonça anterior acabarão por entrar noutra, até porque não só sentiram o perfume da importância do poder, de que andavam tão afastados, como também desejarão concretizar o que não lhes foi possível na anterior legislatura.

O país ficará, assim, dividido em dois blocos, como os ingleses: o conservador, com o PSD e CDS, e o trabalhista com o PS e os partidos à sua esquerda. Os partidos pequenos que estão a experienciar pela primeira vez aquilo que é a política pura e dura, não são para aqui chamados, quer porque não dispõem de uma ideologia reconhecida que os enforme e os imponha à sociedade, quer porque não terão nenhum peso político nas decisões da Assembleia da República, pois não se repetirá, certamente, uma situação como a do deputado limiano no governo de António Guterres.

Verificou-se, nestas eleições, uma preferência pelos partidos de esquerda, com 56,06% dos votos, contra 32,15% do Centro/Direita, havendo ainda os votos residuais dos descontentes que foram parar a grupelhos recém-formados.

Como se poderá explicar esta diminuição de votantes no Centro/Direita e no PCP? Tenho uma teoria, e essa teoria consiste no facto de que o eleitorado tradicional, ou seja, aquele que contribuiu e que vivenciou intensamente o processo revolucionário do 25 de Abril de 1974, vivendo o seu partido por dentro, estar a desaparecer todos os anos, em número elevado. Muitos eleitores já idosos, na sua maioria, incluindo grandes líderes que eram figura nacionais de referência, vão passando para o número dos mortos, e esses não voltam mais!

A renovação geracional, por diferentes razões, mas em que está patente um activismo político bem mais agressivo, no sentido em que há nestes tempos modernos uma grande interacção política com outros partidos europeus, e não só, com maior experiência empírica, aceita facilmente outras ideias mais ousadas, acabando por se vincular aos partidos que as acolhem. Daí, que a erosão de votos nos partidos tradicionais, como PSD, CDS, PCP e, também, PS – não obstante este último ter subido nestas eleições, mas por outras circunstâncias, ou seja o voto útil e não o voto militante – passou a ser uma realidade que se manterá.

Urge, assim, de um modo geral, que os partidos e as suas lideranças apostem seriamente na juventude, que é hoje muito mais esclarecida cultural e politicamente, convencendo-a com argumentos objectivos a aceitarem a ideologia do partido. Isto torna-se extremamente importante, sobretudo para os partidos do Centro/Direita, se não quiserem implodir, porque hoje em dia está na moda ser de extrema-esquerda e é sabido como são aguerridos os militantes e simpatizantes desta corrente política, que estão sempre a abraçar novas causas.

Gostaria de terminar com uma referência específica ao Centro/Direita, que mostrou estar a passar por uma crise anómala. Os dois partidos que compõem esta corrente foram fundadores da democracia no país e merecem, pelo menos por isso, o respeito dos portugueses. Ambos têm as lideranças contestadas, um porque uma parte significativa dos seus militantes nunca aceitou bem o líder, contestando-o amiudadas vezes, e o outro porque teve um resultado eleitoral humilhante que, na minha opinião, não merecia. Terão agora oportunidade de analisar os erros internos e externos cometidos, procurar eleger líderes com projecção social reconhecida e com perfil de estadistas, e desenvolver políticas credíveis que afirmem o partido socialmente, trazendo para as suas fileiras novos aderentes.

N R: Este texto encontrava-se “perdido nos circuitos electrónicos”. Não perdendo actualidade, vem agora a lume, com pedido de desculpas ao seu autor, nosso prezado colaborador e amigo.

Foto: Beira.pt