A partir de certa altura, habituamo-nos a olhar e a sentir as Penhas Douradas como um dos sítios mais belos da Serra da Estrela, cujo cenário, tão bem descrito por José Crespo – grandioso e incomparável a imaginação mais fértil e a pena mais hábil são incapazes de conhecer e descrever –, permite-nos reconhecer, como empenho e consequência de compromisso, o posicionamento do médico-escritor José Crespo quando implicado no meio histórico de duas regiões distintas, sendo que uma delas prendeu-o a um contexto social e cultural que escolheu motivado, à boa maneira sartriana, pelo compromisso de inserção da sua própria liberdade no seio do mundo, sem que isso viesse a representar servidão. Ao amar Viana do Castelo, como verdadeiramente amou, José Crespo fê-lo por abstenção, tornando-se o único responsável pelo seu posicionamento, compromisso e domínio da criação estética, assumidos pela imaginação criadora que lhe adveio do mundo da arte e da poesia, mas também da intervenção científica.

A imaginação em José Crespo manifestava-se pela sua liberdade de espírito. Nasceu beirão e por lá se criou (…entre cardos e flores, / Com os lobos a uivar nas noites tormentosas / E os acordes das flautas dos pastores, / Quando as ovelhas sequiosas / Junto aos ribeiros de água sussurrante, / Que descem das alturas majestosas / e o rio leva até ao mar distante…), escolhendo, mais tarde, o Minho de Viana do Castelo, porque atraído pela sua beleza que tão bem soube exaltar (…Na hora da tardinha, em que desfalece / E se atira cansado para o mar; / Em que a lida nos campos esmorece, / Acabam a faina os jornaleiros / E termina o trabalho nas herdades, / Ouve-se o vivo e alegre chocalhar / Dos rebanhos que descem os outeiros / E o sino das igrejas a tocar / Para a reza solene das Trindades…). Aqui desenvolveu uma intensa actividade cultural e científica, por aqui ficou, construiu o seu Lar, a que deu o nome de «Casa das varandas floridas», constituiu família, e aqui quis repousar para sempre. Ganhou o Lima em detrimento do Mondego.

Volvidas vinte e sete translações, sem que ninguém desse por ele (qual rio do esquecimento) quando chega a alegre Primavera, com seus vestidos estampados, Gouveia ganha LUZ de seu filho pródigo, que no seu olhar castanho, a bruma das distâncias, vê-lo regressar à Beira onde aprendeu, «com os lobos temerários, / As águias da montanha e as cruzes dos calvários / A amar a luta, o espaço e a solidão…».

Maio, mês das flores, Gouveia do Mondego e dos poetas, acolherá para sempre o seu filho pródigo… Por vezes, Santos da Terra fazem milagres!

Nota: – Esta crónica, por vontade do autor, não segue as regras do novo acordo ortográfico.