O combate à pandemia ganha-se se soubermos combater em toda a sociedade mobilizando-a, cortando de forma sistemática e pró-ativa as cadeias de transmissão, reduzindo e eliminando os diferentes focos, protegendo e se possível imunizando o maior número possível de combatentes – os cidadãos – sem nunca descurar o reforço e a melhoria das indispensáveis condições de segurança e trabalho de todos os profissionais da saúde. Há que recrutar, formar e preparar um grande número de “soldados” para as tarefas essenciais.

Este combate também se trava na frente da economia. Não se pode desprezar nem um instante a manutenção da Produção, sob pena de se ir ao encontro da «tempestade perfeita», como se diz. As atividades produtivas e as atividades que nelas convergem – por exemplo, os transportes – têm de ser adaptados à situação pandémica na sua forma de funcionar, exigindo planeamento aturado e monitorização permanente. Algumas atividades têm de ser redirecionadas para objetivos imediatos de combate à pandemia. É um erro decidir contrapondo a economia à pandemia.

A confusão estratégica, a deficiente capacidade de organização e sobretudo de articulação entre os diferentes centros e órgãos de poder do Estado e da Sociedade e destes com a base, acrescido de interesses à solta, práticas e estratégias corporativistas, de visões ou interesses políticos míopes, conduziu-nos a uma situação de descrença na direção, de saturação e indiferença face às notícias. As hesitações e orientações erráticas criam indisciplina que se agrava com a tentativa repressiva.

Uma situação que os inimigos da democracia aproveitam para crescer e corroer as instituições democráticas. Neste combate pela saúde publica o vírus da COVID não é o único inimigo; os vírus do neofascismo, do autoritarismo, da xenofobia são tão ou mais perigosos. Esses vírus estão a avançar em paralelo beneficiando da desorganização da confusão e do desalento na base.

A adesão a uma orientação estratégica correta e a uma prática coerente por parte da população – que está na linha da frente – não se consegue pela repressão, mas sim pela conquista de cada um e pelo seu convencimento, isso é muito mais forte e incomparavelmente menos dispendioso que todas as formas repressivas que venham a ser usadas, a repressão enfraquece a luta geral e enfraquece a democracia.

Nas atuais condições, as forças policiais e de segurança são indispensáveis para ações positivas na base fortalecendo estruturas de proximidade, não se devem sobrecarregar acentuando a repressão. Não se mobilizam os cidadãos e a sociedade para o combate e para a democracia por via da repressão. Se a grande maioria não aderir conscientemente por convencimento, o combate perde-se e a democracia enfraquece.

A repressão também é necessária, isso é verdade, mas apenas em pequenas doses e sobre um número limitado de cidadãos a mobilização tem de ser feita com ideias claras, promovendo os bons exemplos, felizmente há muitos na nossa sociedade, nos vários locais de luta – na frente e na retaguarda, no serviço nacional de saúde, nos serviços comunitários, nos serviços de segurança e defesa, na economia, nos serviços indispensáveis ao funcionamento da sociedade.

Promover os maus exemplos – as notícias quase se limitam a isso – não assumir os erros e a responsabilidade são graves tiros nos pés. Há que corrigir a orientação, fortalecer a direção e a capacidade executiva, organizar e coordenar devidamente os recursos existentes, saber aplicá-los onde é prioritário e mais urgente. Os responsáveis de topo e de direção têm de saber assumir essa responsabilidade, esvaziando e isolando rapidamente dirigentes corporativos e pretensos iluminados e salvadores, à cacofonia e ao ruido existentes, há que sobrepor uma comunicação clara e objetiva e há que travar o avanço de forças neofascistas.

A luta pela saúde publica e o reforço da democracia são elementos do mesmo combate por um país solidário, livre e democrático. Dizer que temos de mudar de comportamento está certo, mas não se esqueçam que o exemplo vem de cima: ORGANIZEM-SE MELHOR, mobilizem e articulem devidamente as capacidades existentes, deem orientações adequadas, criem um clima de confiança, verão que as coisas melhorarão na frente e na retaguarda do combate, formando uma barreira consistente ao vírus e de defesa da democracia.

Existem forças, capacidades e conhecimento em Portugal capazes de combater com eficácia este vírus e o emergente neofascismo, reforçando a democracia e a cidadania. O povo português, apesar das dificuldades, bem dirigido é capaz de vencer esta luta que passa por todos.

Almirante Martins Guerreiro