Hesitei, longamente, em trazer a público este episódio, indicador de uma mentalidade que, estou em crer não era dominante mas que, mesmo assim como o episódio que relato ainda existia quando prestei serviço em Viana do Castelo. Os meus leitores (o uso do plural parece-me perfeitamente justificado, pois sei da existência de dois) ajuizarão quanto à oportunidade desta divulgação.

Quem já prestou serviço em Capitanias sabe que, por vezes, surgem problemas para a resolução dos quais a formação naval não facultou qualquer preparação específica, dependendo a solução adoptada de diversos factores que, com alguma frequência, e vá-se lá saber porquê, permitem obter um resultado satisfatório.

Era costume, nos anos 80, que muitos dos actos administrativos levados a cabo na Capitania, fossem realizados pelas mulheres dos interessados, prática esta que era extensiva a outros tipos de actividades relacionadas com o mar, como fossem a recepção do valor do pescado vendido na lota, o pagamento a fornecedores, a distribuição dos quinhões etc..

Tal situação, nem sempre vista com bons olhos por muitos homens, levava a que surgissem, felizmente que sem grande frequência, ocorrências que, assim o creio, só a aceitação da autoridade do Capitão do Porto permitia “tant bien que mal” resolver.

Embora sem o melindre do sucedido a um outro camarada, a prestar serviço também numa Capitania do Norte, a quem um mestre implorou a sua intervenção junto da mulher no sentido desta lhe facultar mais dinheiro para gastos pessoais, também eu me vi confrontado com uma situação que poderia ter descambado em algo bem complicado.

Era normal que, no dia estabelecido para a emissão de licenças para a apanha do sargaço, a Capitania ficasse a abarrotar de candidatos muitos deles, na sua quase totalidade aliás, do sexo feminino, para a obtenção da respetiva licença.

Num desses dias apercebi-me que, repentinamente, estalara uma violentíssima discussão entre essas pessoas, em que os palavrões eram em maior número do que moscas à volta de peixe estragado e cuja variedade, até a mim que não era propriamente um leigo na matéria, me deixaram surpreendido.

Tendo-me dirigido ao local e perante o silêncio que logo se verificou, inquiri qual a razão para tal burburinho, sendo informado por um dos poucos homens presentes que, ao entrar na Capitania um pescador, ao deparar-se com aquele “mar” de pessoas presentes, terá exclamado em voz bem alta: “Ena pá, tanta gente !”.

Ao que um outro dos homens presentes terá retorquido:
“Gente!?, gente somos só dois ou três, o resto são mulheres”.

Carlos A. E. Gomes