3.2 – O caso de
Malaca
Um exemplo interessante da nossa presença na Ásia, que ainda hoje espiritualmente se mantém, é o caso de Malaca ou “MelaKa”, em malaio, conquistada por Afonso de Albuquerque em 1511 e que se manteve portuguesa até 1641. Foi uma base importante para a expansão lusitana nas Índias Orientais no século XVI, não só no aspeto comercial, mas também da fé religiosa. Apesar das ocupações holandesa e inglesa, ainda se encontram ruínas da fortaleza a que Afonso de Albuquerque chamou “A Famosa” e da Igreja de São Paulo. Na cidade de Malaca passeia-se em ruas com nomes portugueses. O culto de Fátima é outra herança mais recente. Foi para o autor destas singelas linhas uma surpresa agradável quando, em 1996, visitou Malaca e ao chegar ouviu um malaio tocar uma música portuguesa numa gaita de beiços. Outro malaio falou com o autor em bom português e foi-lhe mostrar as ruínas da fortaleza “A Famosa”. Afonso de Albuquerque (1509-1519) incentivou os casamentos de portugueses com mulheres orientais, o que originou a existência de luso-descendentes, difundindo entre as mulheres e os filhos a língua portuguesa, a religião e os usos, aportuguesando a população. Esta política foi defendida pelos colonizadores do século XX, mas não veio a ser aplicada como outros defendiam, por alguns cientistas, nos anos 30 e 40 desse século, prevenirem para os efeitos nefastos da miscigenação, como Mendes Correia e Eusébio Tamagnini. Malaca, no entanto, conserva a sua filiação ao portuguesismo, decorridos mais de três séculos sobre a sua separação do domínio político e cultural de Portugal. Esta comunidade continua a sentir-se espiritualmente ligada a Portugal e orgulha-se da sua herança cultural. No seu folclore usam trajes semelhantes aos nossos, executando danças e cantares portugueses, como o “Vira de Santa Marta”, o “Verde Gaio””, a “Tia Anica”, “Uma Casa Portuguesa com certeza”, o “Fado de Coimbra”, e outros. Em 7 de julho de 2018, Malaca foi classificada como património cultural pelo seu valor memorialístico, pela monumentalidade e pela ligação entre o património histórico e o diálogo intercultural com a língua portuguesa (o papier cristan).

3.3 – A situação no Brasil
A língua portuguesa também triunfou no Brasil, devido, sobretudo, ao seguinte: o crescimento da população portuguesa atraída pelas minas de ouro e diamante; a fixação do Diretório de maio de 1757 do Marquês de Pombal, que impunha oficialmente o emprego do português e proibia o uso da língua geral (tupi); a expulsão dos jesuítas que eram os maiores protetores da língua geral; a fuga da família real para o Brasil, aquando da invasão francesa, transformando o Rio de Janeiro na capital do Império, com a consequente valorização política, económica e social. O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre considera positiva a miscigenação naquele país. A este propósito, várias situações podem ser mencionadas; cito, por exemplo, o caso do navegador Caramuru ou Diogo Alvares Correia, natural de Viana do Castelo, que naufragou no Brasil em 1508, e casou com a filha do chefe da tribo Tupinambá de quem teve vários filhos, facilitando o contacto dos primeiros portugueses com os povos nativos e ajudando, assim, na difusão do nosso idioma e cultura. Em sua honra foi construída uma estátua em Viana do Castelo. Apesar da grande emigração de povos de várias partes do mundo para o Brasil, a língua portuguesa continua ali a imperar, com uma população estimada em 212 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em março de 2021. Com os efeitos negativos do coronavírus, esta estimativa carece de reanálise no final da pandemia.
Continua