Pelo final da primeira década do Pós-Guerra havia em Viana um número já considerável de jovens, filhos da pequena burguesia citadina, habilitados com o curso da Escola Comercial, os quais, com relativa facilidade, arranjavam colocação como empregados de escritório, se não na recém-implantada indústria naval, no comércio e nos serviços, inclusive públicos, da praça. À época, após tantos anos prenhes de carências de toda a espécie, tornara-se um must social vestir com elegância, sobretudo entre a gente nova, e, naturalmente, muitos desses novéis diplomados ganhando por mês, já não umas c’roas, mas um ou dois contos de réis, faziam também gala em ostentar uma fatiota como mandava o figurino; nesse sentido, o Zé António, neto do afreguesado alfaiate mestre José Ciranda (a alcunha familiar), encontrava-se numa situação privilegiada: na foto, do início dos anos ’60, vê-se-o todo janota num bonito fato “de ir à madrinha” amarrotado nos tangos do baile dominical (à esquerda, a fumar), ao lado dos colegas de estimação Carlos de Sousa e Zé Passos. Boa parte desse grupo elegeria como ponto de encontro primacial a Pastelaria Paris, na Avenida, que eu, que fui quase sempre o segundo aluno mais novo da minha turma, comecei a frequentar aos fins-de-semana, ainda antes de me nascer a barba, por influência de colegas repetentes, ou mais conhecidos, como o Abel Lopes, voleibolista, e, mais tarde, dum vizinho meu do Largo das Almas, o sentencioso Xinandes (Fernando, de sua graça, Gonçalves), já amigos íntimos dalguns daqueles betrainos (veteranos). Lá conheci tipos e fiz amizades inesquecíveis: além dos vários mencionados, o fleumático Jom Tomás (que, com o Queirós, comandava os Mauzaria, uma seitinha de noctívagos que costumava iniciar os trabalhos do serão com o moscatel no Manelzinho Natário e por volta da meia-noite zarpava para o “Bas-fond”, como eles designavam a antiga cave da Residencial Viana Mar, onde havia bebidas fortes on the rocks e, quando calhava, cortejando raras turistas, música ao vivo, do jazz ao fado, por amadores, até às tantas; a mim e mais um ou outro dos que então prosseguíamos estudos no Porto, onde ia havendo coristas, e de vez em quando descíamos acolá sequiosos de aprender as boas maneiras à luz da experiência desses joviais manda-chuvas da terra natal, tratavam-nos no gozo pelo menorizante apodo de “estudantinhos”); o impassível Sheep (Carneiro Fernandes, António); o atarefado Zé Anjos; o aplicado Zequita Maciel e o meticuloso Jom Sintra (ou será que é Cintra?) Coelho, universitários; o circunspeto Abílio Sobral e o reservado Chabi, de Xavier (de todos, talvez os dois mais politizados, com quem, aliás, convivi mais assiduamente, quando recebi alvará de sair à noite, no Café Américo, que era ao tempo, na Praça da República, a sede informal dos oposicionistas de todos os quadrantes), e, sem esgotar o rol, claro, o Amorim, Zé António Amorim. (continua).