Acolhemos com o maior agrado a informação de que a Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo vai proceder a obras de conservação e restauro do majestoso retábulo que serve de fundo à capela-mor da sua igreja.

A Misericórdia de Viana, depois da autarquia, foi a mais importante instituição vianense e aquela que mais próxima esteve dos moradores da povoação e de seus arredores. Quem consultar os seus arquivos apercebe-se da extraordinária obra de auxílio aos pobres e doentes, especialmente aos mais necessitados, ao longo de vários séculos, num extenso período em que o Estado ainda não dispunha dos mecanismos de assistência que o caracterizam nos tempos contemporâneos. A praça central da localidade era marcada pela presença de três notáveis construções: os Paços do Concelho, onde se controlava a vida do município, o Chafariz que fornecia a água aos moradores, no meio do campo onde se vendia e confeccionava o pão (o Campo do Forno), e o hospital da Misericórdia, onde se recolhiam e tratavam os doentes e se centrava o apoio aos mais carenciados, que abrangia um diverso leque de ajudas, segundo o formulário das obras de misericórdia, inspirado no Evangelho.

No decorrer dos tempos, os responsáveis pela instituição (os membros da respectiva “mesa”) procuram não só que houvesse instalações adequadas para a sua actividade, mas também que estas projectassem à sua volta uma imagem correspondente ao prestígio da instituição e à importância do serviço que prestava. Desse modo apareceu na segunda metade do século XVI a grandiosa e singular fachada que dá sobre a praça central da cidade e ainda hoje desperta a admiração dos naturais e dos forasteiros.

A capela ou igreja constituiu desde os tempos iniciais um elemento imprescindível no conjunto das construções onde se desenrolava a actividade das Misericórdias. Nela decorria o culto religioso, se realizava a festa da padroeira, e tinham lugar os actos de piedade estipulados nos testamentos dos benfeitores, se faziam as exéquias e aplicavam sufrágios.

Quando se chegou aos meados da segunda década do século XVI, os Mesários da Irmandade acharam necessário proceder a uma reconstrução total da igreja, considerando a degradação em que se encontravam os muros e a cobertura, mas certamente ainda com o intuito de a fazer maior, para corresponder às necessidades e à população urbana da época. O saudoso José Rosa de Araújo ocupou-se a estudar essa obra, numa monografia de que a instituição publicou em 2017 a terceira edição.

Traçada pelo Coronel Engenheiro Manuel Pinto de Vila Lobos, embora integrasse parcos elementos anteriores, a igreja da, Santa Casa da Misericórdia constitui uma “obra de arte total”, isto é, uma realização que incluiu diversas disciplinas artísticas, devidamente coordenadas e executadas na mesma época: arquitectura, pedraria, trabalho em madeira, obra de talha, pintura, azulejo … A propósito de algumas já alguns autores escreveram, designadamente quando foram objecto de intervenções de conservação e restauro.

Neste conjunto sobressai, pelo lugar que ocupa e pela sua grandeza e perfeição, o retábulo da 44 capela-mor. É um retábulo magnífico, daquele estilo a que, desde o grande estudioso da nossa arte barroca Robert Smith, e por sua proposta, se chama “barroco nacional” e que entre nós, segundo já Teles esteve à frente da Arquidiocese (1704-1728). Nos retábulos desse estilo, há colunas torsas, vagamente correspondentes às que se dizem salomónicas, que têm a respectiva base apoiada sobre pilastras ou consolas e rematam em capitéis de inspiração coríntia, sobre os quais arrancam arcos concêntricos, de volta perfeita, torsos como as colunas e como elas decoradas com vides, enroscadas em espiral, com parras e cachos de uvas, no meio de aves que as debicam, e de “putti” ou meninos. Os painéis intermédios e as consolas são também preenchidos com uma decoração vegetalista, inspirada em folhas de acanto, e, no caso dos pilares e consolas, completada com a escultura de aves ou de meninos, e até de outras figuras. Toda a obra era executada em madeira de castanho, ao formão e à goiva, na oficina dos artistas, e depois assentada no lugar de destino, sendo depois revestida com folha de ouro, na quase totalidade dos casos, com excepção das aves e meninos, que eram policromados. Na parte central dos retábulos havia um espaço mais amplo, destinado às exposições eucarísticas, no caso dos retábulos principais das capelas-mores, sendo então mais profundo, ou à colocação da imagem do santo a que era dedicado. Geralmente havia também nichos e/ou consolas laterais, reservados às imagens de outros santos. Ao decorar as várias superfícies do retábulo, Ambrósio Coelho não se limitou à repetição monótona de motivos vegetalistas, mas, com grande criatividade, povoou-o de elementos escultóricos, que lhe conferem muita vida.

Para executar esta obra, a Misericórdia contratou um dos artistas da especialidade com mais créditos na época, o entalhador Ambrósio Coelho, que é dado como residente na freguesia de Serzedelo, que então pertencia ao termo de Barcelos, mas pertence agora ao concelho de Guimarães. É possível que fosse da mesma família de outro célebre artista, que é mencionado como do mesmo concelho, sem no entanto especificar a freguesia, que também executou importantes obras na nossa região: o entalhador Miguel Coelho.

Ambrósio Coelho já era conhecido em Viana, onde em 1709 trabalhou na execução de um novo retábulo para a confraria do Espírito Santo, na igreja de Santa Maria Maior, e, em 1711, para a mesma confraria, se encarregava de fazer o retábulo do Senhor dos Passos.

Para a igreja do convento de Santo António, Ambrósio Coelho, em 1718, contratou o retábulo colateral do lado norte e viria a fazer também, em 1722, o retábulo colateral do lado sul.

A Misericórdia vianense não ignorava, portanto a qualidade do seu trabalho, quando em 1718, assinou com Ambrósio Coelho o contrato para o retábulo da capela-mor da (1718), com quatro imagens, a que, no ano seguinte se juntariam os dois colaterais, naturalmente de menores dimensões e mais simples do que o principal.

Estas obras foram recebidas com agrado no meio local, tanto que, logo a seguir, em 1720, lhe seria encomendado o retábulo da capela-mor da igreja do convento de São Domingos (1720). Nos arredores de Viana, foi-lhe também entregue, em 1721, a execução de cinco retábulos para a igreja de São Miguel de Perre, e, no ano seguinte 1722), uma tribuna para igreja paroquial de Mujães, e, dali a cinco anos (1727), era-lhe solicitado o risco de um retábulo para a capela da Ordem Terceira Dominicana, anexa ao convento de São Domingos. Depois rumou em direcção a outras paragens, de onde lhe surgiam encomendas.

Economicamente, as obras dos três retábulos exigiram um grande esforço financeiro, pelo que inicialmente a Misericórdia teve até de contrair um empréstimo. Só em 1733, mandaria dotar de pintura condigna (“estofar”, isto, revestir de pintura que imitasse a “stofa” ou tecido) as quatro imagens que se repartiam pelos dois conjuntos escultóricos do retábulo principal, e apenas em 1734 e 1739 daria por concluído o revestimento com folha de ouro das talhas do retábulo principal e dos colaterais. Mas valeu a pena. Aliando-se aos azulejos esmaltados, os reflexos de luz na talha dourada e a pintura das imagens davam um novo esplendor e uma nova vida ao interior deste templo, que, por todas as razões, é uma jóia preciosa que devemos continuar a tratar com orgulho e carinho.

António Matos Reis