No entanto, se, como bem se viu, para consigo próprio, com a sua saúde, o Zé Amorim não manifestava grandes preocupações, já a atenção, o carinho, que ele dedicava, em especial, aos mais pequenos, sem desalento, permanentemente, era duma grandeza espiritual extraordinária. Visitas, sempre que clinicamente autorizadas, ao Sanatório Infantil (sim, havia muitas crianças tuberculosas!), quer a fazer desenhos em barda para distribuir pela garotada, ou a tocar e cantar cantilenas apropriadas, ao longo do ano, quer, sobretudo, na época natalícia, a içar pinheirinhos enfeitados com luzes mágicas de variadas cores, a montar presépios monumentais, com colinas de musgo, caminhos de terra batida, riachos, casas caiadas e figuras de barro, Reis Magos, pastores e carneirinhos, todos em direcção à estrelinha dourada do estábulo (como nós fazíamos nos Escuteiros), ou a imitar o Pai Natal com as almejadas prendinhas, essa era a sua agenda interna, oficiosa; mas o seu programa de acção incluía também visitas à escola primária da vila, quer para participar nas peças de teatro, pintando cenários e arranjando músicas, quer para, na proximidade das férias, pôr mais essa pequenada a desenhar, a pintar e a ouvir tocar viola e cantarolar, tudo aquilo que quisessem pedir ao Zé ‘Morim; e havia ainda as diligências personalizadas, que consistiam na entrega em mão, disfarçado ora de carteiro ora de criado, no próprio dia, de bonitos postais de aniversário desenhados e coloridos por ele, mesmo os envelopes (sempre com passarinhos a cantar: a pauta musical isso revelava), a certos meninos e meninas da sua particular afeição!

Toda essa actividade lúdica, essa comunicativa generosidade militante, esse altruísmo para com todas as crianças à sua volta, doentes ou sãs, representou a forma mais nobre de o Zé ocupar o seu imenso tempo livre. Mas, como bem se compreenderá, a vida num sanatório — na «Aldeia dos Tísicos», como alguns, com rudeza, chamavam àquela estância — era, no plano psicológico, muito dura; surgiam momentos de enorme desespero, de nenhuma esperança, de crescente abatimento anímico, de total desânimo, que só a força persistente dos amigos por perto podia ajudar a superar, prevenindo o pior. Felizmente para o Zé Amorim, muito devido, por certo, à sua bondade natural irradiante, pouco depois de chegar ao Caramulo foi acolhido de braços abertos, na sua própria casa, pelo polivalente José Almeida, já o Zeca — definitivamente, um dos seus maiores amigos de sempre, se não mesmo o maior —, que, com a esposa, Ester, uma monçanense, muito o apoiaram ao longo de todo o tempo que ele que lá viveu e em que, entre tantas e tamanhas vicissitudes, teve todavia o partilhado prazer de acompanhar com retribuída afeição, desde pequenitos, o crescimento dos três filhos deles. Inúmeras foram as vezes em que o Zé Amorim almoçou ou jantou no remanso do lar desse casal amicíssimo; a princípio, para além do prazer mútuo da companhia e da conversa fluente, matava saudades da comida alto-minhota; mais tarde, porém, nos períodos de maior depressão, chegou a lá ir quase intimado, mais que simplesmente convidado, para comer… comida, fosse qual fosse, comida saudável, cozinhada: o amigo Almeida não aguentava vê-lo evadir-se do restaurante do Grande Sanatório e já nem sequer no Café Marte — o principal da terra, onde a louça era pintada de duas cores diferentes, para internados e para o resto da população — pedir algo de sólido para trincar, só cigarros e o “precioso néctar” (como ele assaz poeticamente baptizava o bom vinho, que bebia onde e quando não lhe serviam bebida branca).

Um acontecimento infausto iria de súbito arrancá-lo, afortunadamente, a uma dessas fases depressivas, corria o sétimo ano do seu involuntário retiro no Caramulo: o ferimento em combate, algures em Angola, do alferes miliciano Augusto Luís Rocha, em 1969 (nomadizava eu, tenente infante da Marinha, do outro lado do mapa cor-de-rosa, no norte de Moçambique), que conduziu ao seu internamento naquela estância, no Sanatório Santa Maria, para tratamento da lesão pulmonar contraída.

N. do A. – No artigo (8º) desta série, “Animador cultural no Caramulo e arredores”, a locução “tão pouco” é da responsabilidade da Redacção. No original está escrito, correctamente, “tampouco”.
(continua)