Um certo senhor que, em 10 de Junho de 2010, veio aqui a Viana chamar-nos “cidadões” (quando julgávamos ser “cidadãos”) a pretexto de comemorar o “Dia da Raça” que, por acaso, desde 1974, se passara a chamar “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, entendeu há tempos afirmar que, para se ser tão honesto como ele, seria necessário “nascer duas vezes”!

No que respeita à honestidade, o americano Mark Twain afirmava que “o modo de descobrir se alguém era honesto era perguntar-lhe. Se a resposta fosse que sim, era prova de que não o era”.

Seja como for, eu próprio, sem qualquer relação com a honestidade, já há anos que afirmo ter nascido duas vezes: a primeira quando abandonei o aconchego da barriga da minha querida mãe e a segunda em 25 de Abril de 1974, quando deixei de ser um “não existente” em termos de cidadania. Sempre que a “democracia orgânica” montava, para “inglês ver”, um processo eleitoral, o meu nome, curiosamente, nunca constou dos cadernos respetivos.

Como compensação dessa abstenção que me era imposta, desde 1974 não faltei a uma única chamada às urnas, atitude de que não abdicarei enquanto o cérebro mantiver a capacidade indispensável para fazer uma escolha consciente.

Esse simples facto, seja qual for o resultado da consulta eleitoral em causa, tem, no caso de vencer quem, na minha opinião, não devia, a vantagem de não contribuir, ao abster-me, para que o resultado fosse esse…

Este ano, o 45º vivido sem “democracia orgânica”, sem guerras criminosas provocadas por uma atitude de “orgulhosamente sós” com o pretexto de que aquilo que tinha sido colónias para os outros, eram para nós “províncias ultramarinas” equivalentes ao Minho ou ao Algarve, deve ser devidamente festejado.

Não vou afirmar que tudo está bem e que vivemos no melhor dos mundos.

Cometeram-se erros e fizeram-se escolhas erradas que saíram caro, mas , apesar de tudo, vivemos hoje num regime que nos permite, pacificamente e com toda a liberdade, escolher os nossos governantes sem as fronteiras do “Deus, Pátria e Família” que nos foram impostas durante quase 50 anos.

Temos todos obrigação para com os que nos sucederem: deixar-lhes uma pátria livre orientada no sentido da melhoria da vida de todos e não apenas dos privilegiados.

Dionísio Ferreira