Estou em crer, como já anteriormente referi, ter sido nos primeiros dias da minha permanência em Viana do Castelo, que ouvi, pela primeira vez, o termo lamageiro, na circunstância usado pelo piloto Agostinho da Silva Vieira relativamente ao mestre Zé Marumba. No convencimento de que se tratava de algum termo local, aliado ao facto de não o ter ouvido outra vez, levou a que, só bem recentemente ao ser confrontado novamente com a existência de tal palavra, cuidasse procurar qual o seu significado e origem que, de acordo com o que me foi referido pelo comandante Cyrne de Castro, era de utilização frequente, durante a sua meninice, na Ribeira de Viana do Castelo.

Na maioria dos dicionários consultados, como aliás nas enciclopédias, o termo lamageiro surge com o significado de marítimo da Ribeira de Viana do Castelo, auxiliar dos pilotos da barra, sendo a sua atividade designada por lamagem ou por alamagem. Estou convencido, se calhar tão erradamente como em tantas outras coisas, que tal definição terá tido origem no trabalho de Óscar Pratt, intitulado “Linguagem Minhota do Distrito de Viana do Castelo”, publicado em 1911 no vol. 14 da Revista Lusitana, de Leite de Vasconcelos.

O citado autor baseia -se, por seu lado, num artigo publicado no “A Aurora do Lima” de 4 de Novembro de 1908, no qual as propostas apresentadas pelo Capitão do Porto de Viana do Castelo, o então Guarda Marinha Joel Pascoal, tendentes a terminar a greve dos lamageiros são elogiadas, ao invés do que sucedia com a posição dos lamageiros que, não as aceitando, optaram pelo prolongamento da greve.

Tanto Óscar Pratt, como Cláudio Basto, que na mesma Revista se refere aos lamageiros, levam a admitir que a profissão deveria ser recente sem, contudo, explicitarem qual a natureza do respetivo trabalho, o mesmo sucedendo, aliás, em todos os dicionários e enciclopédias consultados.

Contrariamente ao que aparentemente é sugerido a atividade dos lamageiros em Viana do Castelo já existia tão cedo como 1685, ano em que no acórdão de 5 de Maio da Câmara se encontra estabelecida a obrigatoriedade dos pilotos da barra terem “um batel de alamagem, guarnecido de gente de força e boa, que possam remar 6 remos da Flandres”, acrescentando – se ainda que também deveriam ter cabos de 80 braças, o que leva a admitir que o serviço de alamagem estaria relacionado, no essencial, com o reboque das embarcações entradas até ao fundeadouro ou até fora da barra, no caso das saídas. Neste mesmo sentido apontam as considerações do articulista do “A Aurora do Lima “no artigo atrás citado quando, como solução para a greve dos lamageiros, sugere a requisição, pelo Capitão do Porto de um rebocador da Marinha de Guerra com guarnição reforçada, ou mesmo algumas praças da Marinha para tripularem as catraias dos pilotos, acrescentando que dessa forma “os nossos pescadores ficarão em greve eternamente, porque não mais serão precisos os seus serviços”.

A utilização de lamageiros não era exclusivo de Viana do Castelo porquanto a sua existência está documentada no Livro de Registo dos Proventos dos Pilotos da Barra de Esposende, entre 1908 e 1924 e, na cidade do Porto, em 1935 (1). No que concerne à origem do termo é meu entendimento, pese embora a antiguidade na sua utilização, que não terá sido igualmente em Viana do Castelo e isto porque tal atividade, com a designação de lamanage, está referenciada em França, anteriormente a 1566, data esta em que a actividade foi regulamentada, com o significado de um serviço prestado aos navios, que querem entrar num porto ou num rio, pelas barcas ou pequenas embarcações dos lamaneurs que seguem pela sua proa, com os instrumentos necessários ao reboque. Esta actividade era, ao tempo em França, considerada como sendo pilotagem, sendo os lamaneurs uma das categorias existentes de pilotos.

Ainda segundo a fonte que sigo, “Nouveau Commentaire sur L’Ordenance de la Marine d’ Aôut de 1681”, da autoria de Josué Valin René, ed. 1771, o termo derivaria do facto do trabalho ser feito à mão.

É bem possível que a actividade dos lamageiros em Portugal, tal como terá acontecido em França, tivesse tido início como pilotos locais, evoluindo depois, com a criação dos pilotos da barra, para encarregados do reboque das embarcações e sua amarração e, finalmente, com o aparecimento dos navios de propulsão mecânica ficassem unicamente com as funções de amarração aos cais, funções que ainda hoje se exercem em França, mas que, em Portugal terão sido extintas com a criação das Juntas dos Portos.

Carlos A.E.Gomes

(1) Blog Piloto Prático de Leixões, entrada de 26 de Agosto de 2008. Devo o conhecimento deste livro ao Sr. José Eduardo Felgueiras a quem aqui quero, mais uma vez, expressar o meu agradecimento por me ter facultado uma cópia do exemplar de que é possuidor.

P. S. Devo ao Sr. Manuel de Oliveira Martins, antigo piloto da barra de Viana do Castelo e ao Sr. José Eduardo Felgueiras a amabilidade que tiveram em me facultar, respetivamente, o exemplar do jornal “A Aurora do Lima”, de Novembro de 1908 e a cópia do Livro de Registo dos Proventos dos Pilotos da Barra de Esposende, a quem aqui renovo os meus agradecimentos.

N.R. – O autor escreve ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico