As elites político-administrativas do nosso concelho de Viana do Castelo têm-nos deixado, ao longo dos tempos, legados que fazem parte da nossa memória colectiva e que nos ajudam a compreender melhor a História deste território. Nem sempre a forma escolhida para a sua materialização corresponde às expectativas, mas não deixa de ser um esforço louvável.

A escultura, enquanto arte, é admirável, e vem desde tempos imemoriais. Era e continua a ser uma forma de expressão vigorosa, tal como a pintura, em que alguns artistas são de tal modo perfeitos na criação das suas obras, que só lhes falta o poder do sopro da vida, poder, no entanto, que só a Deus pertence. Pessoalmente sou um adepto confesso das obras que configuram realidades objectivas e não subjectivas, porque estas apenas existem na cabeça dos seus autores, mas que muitas vezes, apenas pela mera simpatia e pelo politicamente correcto, se ouve dizer que são admiráveis, embora por trás se esconda uma manifesta ignorância. Fico extasiado quando contemplo quadros do meu saudoso amigo e grande mestre, Henrique Medina, que, como retratista exímio, soube transportar para a tela a alma dos seus modelos, fosse esse estado de alma alegria, tristeza, cansaço, esforço, sofrimento, fé, desespero, etc. Já não me sensibilizam nada os borrões e rabiscos que enlevam tanta gente e que tenho a certeza não os entendem!

O mesmo se passa quanto à escultura. Estátuas que, quando contempladas, nos transmitam algum sentimento e nos identifiquem o homenageado, e não meia dúzia de calhaus uns em cima dos outros, como por aí se vê, e que, objectivamente, nada se lhes extrai quanto ao significado real. Significado que, apenas, existe na cabeça do escultor. Em todo o caso respeito, naturalmente, o trabalho e o esforço do autor.

A nossa cidade, e na sequência do início deste texto, tem por cá um pouco de tudo. Calhaus uns em cima dos outros, como acontece no Largo Afonso III, que se diz ser um monumento ao 25 de Abril de 1974. Por mais que me esforce não consigo fazer a ligação, mas não deixo de admirar quem o case com a data assinalada, porque deve ter uma percepção sensorial extremamente apurada! Já outras obras escultóricas existentes no concelho, designadamente na cidade, configuram realidades da vida que atraem a sensibilidade dos cidadãos em geral.

No Largo de S. Domingos, tão nobre pela sua história de séculos e onde a Igreja com o mesmo nome e os ricos prédios históricos convivem (conviviam) numa harmonia arquitectónica perfeita, foi colocada uma monstruosidade que retirou àquela praça a sua beleza natural. A ideia de homenagear Frei Bartolomeu dos Mártires é, com efeito, positiva e com ela os vianenses naturalmente se congratulam, mas a obra em si mesma é um mastodonte que o próprio Frei Bartolomeu, se fosse vivo, mandaria retirar de imediato. É que o que chama a atenção de quem a observa não é o Frei Bartolomeu, como seria de esperar, mas é sim o jumento que mais parece um bisonte, tal a sua dimensão absolutamente desproporcional. Para agravar mais ainda a questão, aquele conjunto escultórico está assente numa base circular descomunal ocupando demasiado espaço tanto em altura como em área.
Frei Bartolomeu dos Mártires é credor de todo o nosso respeito e admiração pelo seu modelo de vida que a todos deveria inspirar. Mas não me parece digno deste conjunto escultórico, onde é a figura homenageada, porque as atenções e os comentários recaem sobre a enormidade do jumento. Não deixando de estar imanente uma louvável intenção de fé na decisão da sua execução, a verdade é que não é este o sentimento que transmite aos visitantes. Lá do Céu, onde a sua alma se encontra (em breve será canonizado) o nosso Frei não deverá estar muito agradado com esta honraria terrena, porque em absolutamente nada condiz com a sua história de vida, caracterizada pela modéstia, pela humildade e pela pobreza, embora tenha sido chamado a desempenhar altos cargos na hierarquia de Igreja Católica. E se a escultura pretende ser uma chamariz para a prática das virtudes que viveu intensamente, desenganem-se! Só quem padece de surdez é que não se apercebe da realidade.

Pelo que se sugere às elites político-administrativas e religiosas do concelho que considerem a possibilidade da retirada deste conjunto escultórico, oferecendo-o à cidade que foi sede do seu arcebispado ou àquela onde nasceu. E em seu lugar coloque-se, então, uma estátua de tamanho normal, devidamente enquadrada no conjunto arquitectónico que envolve o Largo de S. Domingos. O nosso Beato Frei Bartolomeu dos Mártires merece-o, a sua memória ficará mais viva nos nossos corações e, quem sabe, talvez venha a suscitar a fé e a converter algumas almas, correspondendo à intenção que terá presidido à homenagem.

Será, também, uma forma de reconhecida humildade que as entidades oficiais deixarão para a História da cidade e que enriquecerá a memória colectiva. Tal como o fizeram em relação ao Caramuru, que migrou da Praça da República para a Praia Norte, o sítio adequado para a preservação da sua memória.