Como terá sucedido com a esmagadora parte dos portugueses, também eu assisti com incredulidade e, admito, especial “azia”, ao circo de fraca qualidade a que se reduziu a discussão – e posterior reprovação – da proposta de Orçamento de Estado para 2022. Por mais que me tentem explicar, e por mais esforço pessoal que coloque em qualquer tentativa de compreensão, vejo-me incapaz de alcançar quaisquer vantagens para o país (ainda que no plano teórico) que possam advir deste tão surreal e preocupante desfecho, que só não é cómico porque é trágico…

Depois de uma brutal crise económica e social instalada a partir de 2011 e que nos arrastou para uma humilhante indigência financeira, em pleno processo de “saída” – vamos ver – do “Cume de Dante” pandémico em que temos vivido nos últimos dois anos, e no momento em que o país iniciava a mais do que necessária retoma económica, amplificada pelos fundos do PRR que hão-de vir – agora a conta-gotas -, eis que se instala uma crise política (que “ninguém” queria), de alcance imprevisível quanto às suas consequências e duração, mas para a qual todos os partidos contribuíram (em diferentes dimensões, é certo) de forma tão directa e hipócrita quanto irresponsável, obtusa e egoísta. Ou antipatriótica, se preferir, porque efectivamente essa é a expressão que mais se adequa à circunstância de se perceber, despidos de espartilhos político-ideológicos que nos possam toldar o discernimento, que conveniências partidárias mesquinhas, miúdas e egocêntricas são colocadas muito acima e muito à frente dos supostamente mais prementes e inultrapassáveis interesses da nação.  

Nesta fase, ainda de reflexão, quanto às causas, e de projecção, quanto às consequências, impõe-se desde já a procura de respostas para as perguntas que a todos assolam. Porquê, para quê e em benefício de quem se promove uma crise perfeitamente evitável? À direita percebo a opção, aliás já há muito anunciada, pois, não estando no poder, PSD, CDS, IL e Chega percebem que quanto mais forte for uma crise política, maior as probabilidades de enfraquecimento do governo e, decorrentemente, do(s) partido(s) que o sustentam, abrindo uma janela de oportunidade única para um bem-sucedido “assalto ao poder”. Não deixa de ser um conjunto de razões egoístas, mas são razões politicamente válidas ou, pelo menos, compreensíveis, pois daí retiram, pelo menos em tese, uma vantagem directa. 

À esquerda… Bem, aqui não há como escamotear a “coisa”: não alcanço quaisquer razões a montante de uma decisão a todos os títulos incompreensível. Como sempre sucede, para um mesmo facto há duas (ou mais) versões. E aqui há várias. O governo garante que foi ao encontro das reivindicações do Bloco de Esquerda (aceitando 7 das 9 propostas formuladas) e da própria CDU, procurando lançar pontes de entendimento entre as partes. Em vão. Numa lógica de tudo ou nada, BE e CDU recusaram ceder, garantindo que o governo não quis negociar, que desprezou as suas propostas, e que continua a querer impor políticas de direita, algumas herdadas dos tempos da Santa Inquisição da Troika, recusando integrar as suas mais emblemáticas propostas vendidas como “protectoras dos trabalhadores”. Os mesmos que agora versão as suas vidas em suspenso. 

E é precisamente aqui que “entramos” no campo do surreal, quando percebemos que os mesmos partidos que acusam um Governo de esquerda de governar à direita estão, eles próprios, a facilitar a ascensão da direita ao poder (essa sim, real). Pressagiarão, porventura, que nessa circunstância e apesar do mais do que previsível desaire eleitoral que sofrerão, recuperariam, a prazo, a relevância do seu papel na contestação de rua – combustível inalienável à esquerda – que, como consequência do aval dado à “Geringonça”, se foi esbatendo ao longo dos últimos anos. Agora, há que fazer pela vida…

O que a CDU e o BE se dispõem a fazer, no fundo e na verdade, é morrer agora nas urnas – aceitando mesmo ser ultrapassados pelo Chega -, esperando depois a ressurreição nas ruas. Parece fazer sentido. O problema é que eu não acredito em ressurreições…