A Peneda situa-se na Serra do Soajo e pertence ao concelho dos Arcos de Valdevez.

A paisagem agreste mas, ao mesmo tempo, bela na sua rusticidade. Na monotonia e solidão da serra ouve-se o uivar do lobo e o faiscar dos relâmpagos. O frio é intenso .
A vida de Eulália é apascentar o rebanho.

Casou aos dezoito anos com empregado da Central do Lindoso. Teve um filho que com um ano de idade já contraíra paralisia infantil. O dinheiro ganho pelos pais é quase todo gasto na botica.

A vida do filhote ia crescendo e a tortura dos pais continuava.
Eulália no meio da sua desgraça por vezes pensava, no seu casamento, naquela felicidade mas também pensava, interiormente, que casamento muito festejado traz desgostos a dobrado, como se diz na sua terra.

Casou na igreja e depois houve boda em casa do noivo e outra em casa dos pais dela.

O tempo ia passando, ora melhor, ora pior, mas aquela mãe já não suportava a ideia de deixar crescer o filho até a idade de deambular pela aldeia, como as outras crianças, saltando , brincando ou, pelo contrário, agarrado a um pau, inútil, sem gozar os prazeres da mocidade .

Viu-se obrigada a seguir o conselho de uma tia que a aconselhou a levar o pequeno à bruxa de Santa Vaia, nos Arcos, que a cura era certa, sem dizer nada ao marido, que era avesso a estas coisas.

A bruxa pegou no pequeno, mirou-o com olhos misteriosos, de sondar profundo, e entregou-o à mãe com a receita:
Chegando a casa faça uma fusão de azeite, com nove olhos, partindo cada um em três partes e com uma teia de aranha. Ferva tudo muito bem e esfregue o ingrediente nas pernas do menino, durante três dias e de cima para baixo. Ponha duas velinhas ao Senhor da Prisão, e ouvir quinze missas a fio. Se o tratamento não resultar, varra a casa à meia-noite e traga cá o lixo para eu dar a benzedura e tirar a feitiçaria da casa.

Eulália voltou a casa atordoada com a sabedoria da bruxa e quase confiante na cura do filho. Fez as mezinhas da receita, às escondidas do marido, mas em vão. O filho piorou.

O marido não foi trabalhar alguns dias para fazer as sementeiras. Viu o estado do filho e pensou levá-lo a Braga a um especialista, quando a tia da Eulália lhe disse que se o remédio da bruxa não curou o pequeno, se preparasse para o ver numa cadeira de rodas para sempre. Ficou exaltado e quis desprezar a mulher por ela acreditar em bruxedos. Levou o filho a Braga, consultou os melhores médicos, que lhe deram pouca esperança, mas o miúdo foi submetido a cuidado tratamento.
Porém, o pai confiava mais nos milagres da Senhora da Peneda que na ciência dos médicos. Esperou por Setembro para cumprir uma grande promessa, levando junto do olhar miraculoso da Santa, o filho paralítico. Foi junto do Templo com Eulália sem falar nem comer durante três dias. Penitenciou-se por amor do filho e por devoção da Senhora da Peneda.

Ambos cumpriram a promessa à Senhora da Peneda, com milhares de crentes, oraram à Virgem pela cura do filho que levavam nos braços. Todavia, o pai levava muitas vezes o filho aos especialistas de Braga e Eulália já não tinha frio, mas sim, a aquecer-lhe o coração, uma criança traquina, irrequieta.
Todos os anos vão, com o filho curado, rezar à Senhora da Peneda.

 

Referência: Nogueira, Vidal Caldas ,
Lendas da Minha Terra , págs. 165 a 171