A crise interna que incendiou o PSD não se extinguiu com a posição assumida recentemente pelo seu conselho nacional, cuja votação legitimou o presidente, a direcção do Partido e, em razão disso, a orientação política delineada. Poderia existir a ilusão de que tudo seria dirimido com este resultado, mas a realidade mostra que subsiste uma fractura complexa que só num congresso poderá ser eliminada, dando-se a voz aos militantes delegados. Por mais que se pretenda passar uma esponja, a verdade – como diria Elvis Presley – é como o sol; poderemos esconder-nos dele por algum tempo, mas ele nunca desaparece.
De facto, e com relação a este Partido, subsiste um ambiente de alguma hostilidade, o que não surpreende quando vindo dos seus adversários naturais das esquerdas, mas que se torna doloroso e deixa marcas quando emana do interior do próprio Partido. E a prova é evidente quando verificamos que alguns destacados militantes se desfiliaram e outros se prepararão para seguir o mesmo caminho, deixando incertezas quanto ao futuro.

Sendo o PSD um Partido de poder, que muito lutou para implantar a democracia no país e que, pelo menos por isso, deve merecer a consideração dos portugueses, torna-se preocupante constatar como vai perdendo apoios naquilo que tem sido a sua maior riqueza, que são os seus recursos humanos, dos quais alguns militantes notáveis que já adquiriram lugar na História.

Que terá acontecido para se chegar a tal ponto? Julgo que não andarei longe da verdade se afirmar que grande parte dos problemas reside na mudança etária das estruturas locais um pouco por todo o país. Na verdade, a geração fundadora e seguintes próximas, amadurecidas e experientes, que muito deram de si para a afirmação do Partido na sociedade, vão deixando a militância activa por razões diversas, sendo substituída por outras gerações mais novas a quem falta a experiência empírica, não conheceram o sabor da luta nos momentos da grande conflitualidade e, fruto de uma outra realidade sócio-política que se foi instalando, não vivem o Partido pelo que representa o seu ideário, mas, em muitíssimos casos, por aquilo que dele podem extrair visando benefícios pessoais e profissionais.

Esta situação assume particular impacto nas eleições para os órgãos concelhios e distritais, com influência decisiva na escolha para os candidatos a deputados, sempre com as mesmas figuras a baterem-se pelo controlo interno, onde fluem situações obscuras de influências e jogos dos interesses pessoais de que o grosso dos votantes não se apercebe. A voracidade por lugares de representação do Partido chega ser doentio, o distanciamento aumenta e a credibilidade, por sua vez, diminui, em vez de aumentar. Militantes de alta craveira, que tanto deram ao Partido e ao país, são levianamente ignorados, perdendo-se desta forma a alma que o enformou e a chama que o tem mantido vivo e actuante.

A renovação de militantes para a direcção de órgãos locais é uma prática que só acontece quando se esgotam os prazos estatutários e, mesmo nesta circunstância, surgem geralmente os mesmos que já antes lá estiveram em mandatos anteriores, para continuarem manter o controlo. Torna-se evidente que atitudes desta natureza desmotivam e chamo a isto a exaltação do egoísmo e por vezes, até, da mediocridade.

Porque sou um crente na democracia, porque reconheço ao PSD um heróico contributo na condução dos destinos do país, missão para que foi escolhido diversas vezes pelos eleitores, e porque faz falta um PSD forte no nosso sistema político-partidário, seria bom que, no nosso Distrito de Viana do Castelo, os militantes interessados em cargos partidários colocassem de parte os interesses pessoais e deixassem respirar o Partido. E se falo no nosso Distrito é porque é aquele onde vivo, mas abrange igualmente todos os outros.

Julgo que a desfiliação e o abandono não se apresentam como soluções finais, mas sim a luta, porque é a luta que dá sentido à vida.