Poucos vianenses se lembrarão de Bernardo Pinto Abrunhosa, e atrevo-me a dizer que somente alguns saberão quem foi e o que fez por Viana do Castelo.

No início do século XX, para ser mais preciso em 1918, há mais de cem anos, Bernardo Pinto Abrunhosa, natural de Vila Real, a residir em Vila Nova de Gaia, adquiriu parte do Monte de Santa Luzia e da obra do Hotel, que Domingos José de Morais iniciara em 1903 e se encontrava paralisada, a reconstruiu e inaugurou em 1921.

Em 1919, requereu à Junta Autónoma do Porto de Viana do Castelo autorização para estabelecer um estaleiro de construção naval, no terrapleno a montante da ponte metálica, em sociedade com dois engenheiros espanhóis, D. Cipriano Salvaterra Y Iriarte, de Pamplona e D. Afonso Peña Boenf, de Madrid, para aí construírem barcos, pontões e composições navais flutuantes em cimento armado. O primeiro pontão ou armazém flutuante, elaborado em cimento armado na península ibérica, foi batizado de «Gigante», e lançado à água nos Estaleiros da Moderna Construtora Naval, Lda., no dia 28 de outubro de 1920.

Mas Bernardo Pinto Abrunhosa não ficaria conhecido dos vianenses por este estaleiro, mas pela construção do Elevador de Santa Luzia, em parceria com o banqueiro José Augusto Dias, e também pelo palacete Abrunhosa, que todos conhecem atualmente por ser o edifício sede da Segurança Social, na rua da Bandeira.
Tal como este vilarealense, Mário Ferreira, natural de Matosinhos, veio expandir os seus negócios para Viana do Castelo. É do conhecimento de todos o movimento de navios que este ano «invadiram» a doca comercial e os cais do porto de Viana que sem eles estariam «às moscas», como se costuma dizer.

Estes navios que operam regularmente no Douro (alguns aqui construídos), vieram fazer as reparações anuais, trazendo com eles pessoas, empresas, serviços, que movimentam a indústria, a hotelaria, a restauração, o comércio e dão vida à cidade.
Mário Ferreira é um visionário que põe em prática os sonhos que a sua mente concebe. O seu percurso como empresário é prova de uma grande audácia, dum empreendedorismo sem par no panorama nacional.

Portugal teve noutros tempos, alguns paquetes icónicos. Quem se lembra do «Santa Maria», do «Vera Cruz», do «Príncipe Perfeito», etc., etc.?
Há nos portugueses uma certa nostalgia desses navios. Quem sabe (só ele o poderá dizer), se Mário Ferreira adquiriu essa nostalgia no tempo de menino e moço ao ver nas docas de Leixões esses paquetes ou então no seu percurso de vida de passagem pelos navios de cruzeiros. O certo é que Mário Ferreira se dedicou primeiro aos cruzeiros fluviais e, não satisfeito, enveredou pelos cruzeiros oceânicos, mandando construir nos estaleiros da WestSea o primeiro navio de cruzeiros oceânico construído em Portugal – o «World Explorer».

O dinamismo que impõe nos projetos levam-no a superar obstáculos que outros julgam intransponíveis.
Não creio que Mário Ferreira venha, como Bernardo Pinto Abrunhosa, a construir casa em Viana do Castelo para encurtar distâncias. Os tempos são outros e as vias de comunicação permitem uma viagem mais rápida e segura do Porto a esta cidade, mas, estou certo, que a vida futura de Mário Ferreira se vai centrar muito em Viana do Castelo.
A construção de mais dois navios de cruzeiros, de média dimensão, vocacionados para viagens especializadas, e outros que se perspetivam, vão-lhe consumir o tempo nesta cidade, com impactos positivos que ambos beneficiarão.
Quem sabe já estará a germinar na sua mente a construção de alojamentos para albergar a mão de obra especializada necessária à construção e reparação desses e outros navios?
SEJA BEM-VINDO.
«maolmar@gmail.com»

P.S. Para elaborar este artigo, socorri-me do prestigiado jornal «A Aurora do Lima» […] a quem agradeço, na pessoa de seu diretor, as facilidades de pesquisa que me foram concedidas.

Foto: Dinheiro Vivo