Passado um ano o Batalhão rodou para uma zona mais calma, a Fazenda Tentativa, próximo do Caxito, tendo a minha Companhia ficado em reforço a um Batalhão de Cavalaria (Centauros) no Campo Militar do Grafanil, próximo de Luanda. Dali, a Companhia era destacada para missões de intervenção, participando em operações de grande envergadura, considerando os efectivos que eram empenhados. Foi nesse segundo ano de comissão militar que conhecemos locais míticos e quentes, como Pedra Verde, Úcua, Piri, Nambuangongo, Zala, Missão, área do rio Dange (terrível) e outras, assim como prestámos missões de segurança à Engenharia e a diversas colunas de abastecimentos para Camabatela, Mavoio, Maquela do Zombo e outras áreas do Distrito do Uíge, e ainda para o escoamento do café. Tarefa primordial era proteger, sempre e em qualquer circunstância, as populações civis nas suas sanzalas ou onde fosse necessário.

Não vale a pena falar da violência própria da guerrilha nem entrar em pormenores de ordem operacional. Tínhamos uma missão a cumprir e cumprimo-la com orgulho, o orgulho de corações jovens na Primavera da vida, e a minha grande alegria foi poder chegar ao fim da comissão e trazer vivos, de regresso às suas famílias, todos os militares de quem fui primeiro responsável.

Na actualidade, já não tenho notícias de que a minha Unidade se reúna em convívio. Muitos emigraram, outros já terão partido e os que restam andarão muito dispersos. Mas não posso deixar de recordar o que foi o meu comandante de Batalhão, o Tenente-Coronel Passos de Esmeriz, oficial brilhante, que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, e já como Brigadeiro, haveria de ser o primeiro Comandante da Região Militar Norte e, alguns anos mais tarde, nomeado Comandante-Geral da Guarda Nacional Republicana. Como recordo também o meu Comandante de Companhia, Capitão miliciano Ricardo Pedrosa (pai de escritora Inês Pedrosa), um militar inteligente e muito dedicado. Estes dois Oficiais ficaram sempre meus grandes amigos até ao momento das suas mortes e presto-lhes aqui a minha respeitosa homenagem, curvando-me perante a sua memória.

O nosso regresso ao Continente iniciou-se na noite de 18 para 19 de Fevereiro de 1969, no paquete Vera Cruz, e a chegada a Lisboa aconteceu na manhã do dia 27. Depois dos abraços aos familiares, fizemos a viagem de comboio para o Regimento de Abrantes, após o que cumprimos os procedimentos para a desmobilização. Já a noite ia alta, dormindo pela última vez naquele quartel, quando aquilo que, supostamente, seria uma noite calma, se transformou num pesadelo, com o forte tremor de terra ocorrido perto da madrugada e que fez com que as camas de deslocassem nos quartos, mas sem provocar estragos. Gerou-se alguma confusão, mas depois tudo acalmou e a vida pôde finalmente regressar à normalidade.

De manhã, foram as despedidas dos meus destemidos militares, na quase totalidade oriundos da Beira Alta e Trás-os-Montes. Homens rijos, fiéis, sempre com o ânimo em alta e de uma fibra como nuca vi, habituados a guardar cabras e ovelhas nos montes das suas terras, nada houve que os demovesse perante as dificuldades. Entre muitos abraços e lágrimas despedimo-nos, e a frase mais ouvida, que perdura na minha memória, foi esta:- “O nosso Alferes foi para nós mais do que um pai”. Tenho a certeza de que no coração dos que estão vivos ficará sempre o sentimento de uma forte amizade e permanecerá o lema adoptado para o Grupo de Combate “todos por um e um por todos”. Honrámos a Bandeira Nacional e o juramento de fidelidade à Pátria, que fizéramos. As nossas consciências estão leves!

Este texto é uma justa homenagem àqueles jovens que constituíram o meu Grupo de Combate, de quem nunca me esquecerei.

A. Lobo de Carvalho