Conheci-o no segundo ou terceiro dia após ter assumido as funções de Capitão do Porto quando, acompanhando os Pilotos da Barra (Agostinho e Josué), numa visita de cumprimentos que entenderam fazer ao novo representante da Autoridade Marítima, me foi apresentado como auxiliar dos pilotos da barra. Tempos depois, o piloto Agostinho referiu-se-lhe como sendo lamageiro, termo este a que voltarei numa outra ocasião, até porque julgo poder acrescentar algo de novo quanto a este termo.

Fiquei então com a sensação, que o contacto posterior veio confirmar, que ali estava alguém que se encontrava de bem com a vida, na verdade o mestre Zé Marumba não procurava sobressair, mantendo uma postura “apagada”, mas que, por vezes, o seu olhar e um certo sorriso, pareciam querer transmitir que a sua opinião, não era, no todo ou em parte, concordante com o que ouvia.

Por saber que ocupava parte das suas horas vagas na pesca tive “artes” de me fazer convidado, o que, dada a intervenção do piloto Agostinho, não foi nada difícil. Estou em crer que, perdoe-se-me a “vaidade”, das restantes vezes em que o acompanhei o empenho do Agostinho não se tornou necessário, isto talvez pela vontade que demonstrei em conhecer, quer os perigos da barra, quer as diversas zonas mais apropriadas para a pesca, elementos esses que o mestre Marumba conhecia na perfeição e que, pelo menos no que me dizia respeito, parecia fazer gosto em dar a conhecer.

Era no decurso dessas pescarias que, curiosamente, ou talvez não, o mestre Marumba, contrariamente ao habitual, se mostrava um grande conversador, quer quanto à indicação dos vários perigos da barra e das zonas vizinhas, quer quanto à prática da pesca, aspetos esses que, verdade seja dita, não eram propriamente o meu forte.

Fosse como fosse, não houve dia de pescaria em que eu não regressasse com dois ou três robalos, número esse que, apesar de me dar natural satisfação, ficava muito aquém do elevado número de espécies capturadas pelo mestre Zé, estou mesmo em crer que a diferença não era muito maior para evitar que tal facto causasse embaraço ao Capitão do Porto.

Como sucede com muita frequência, há uma altura em que o aprendiz pretende suplantar o mestre, tal momento sucedeu-me quando, acreditando piamente na publicidade, adquiri uma bisnaga de um qualquer produto que, colocado nas amostras, iria constituir um verdadeiro chamariz para os robalos.

Foi, pois, com natural excitação que, num determinado dia, quando nos fizemos ao mar, resolvido a experimentar o tal produto, o informei que, a partir de então, outro galo cantaria e, ou muito me enganava, ou o campeão da pescaria passaria a ser um outro que não o habitual.

Não recordo qual a resposta do Zé Marumba, se é que a houve, mas recordo-me de ter lido no olhar com que me fitou algo como “cantas bem, mas não me convences”.

Confesso que as minhas primeiras tentativas não lograram o êxito que esperava e que era publicitado, o que não mereceu do meu companheiro qualquer reparo especial.

Passado que foi um grande bocado sem o êxito esperado, lá resolveu aflorar o assunto questionando-me se o tal produto que usava, para além de induzir os robalos ao suicídio, também os cozinhava, e isto porque o tempo em que eu já tinha um peixe fisgado no anzol, era mais do que suficiente para este estar cozido.

É evidente que nunca mais me fiz acompanhar da tal maravilha da ciência que, afinal, até nem servia para “cozinhar” o peixe apanhado.

Estou certo que não me esqueci, ao abandonar o cargo, de lhe agradecer o muito que fez para tornar agradável a minha permanência em Viana do Castelo.
Carlos A. E. Gomes

P.S. Estou certo que, por diversas vezes, lhe fiz sentir a minha gratidão pela forma simpática, pela paciência e deferência que sempre para comigo teve; estou igualmente seguro que, se por acaso pudesse ler o que agora escrevo, certamente não apresentaria o tal sorriso Mestre Zé Cascas. O mestre Zé Cascas, de seu nome José da Guia.