Vou falar para ti. E vou falar acerca do mistério do sofrimento que é tão misterioso como ruinoso, desastroso, perigoso e doloroso. A minha fé só o entende como consequência do mal original que o homem construiu e que, a partir daí, até vai continuar a construir.

É verdade. O homem vai continuar a praticar escândalos, maldades, arbitrariedades, sacanices, malandrices, javardices e por aí adiante. Jesus até preveniu: “Ai do mundo por causa dos escândalos”, isto é, por causa da maldade proveniente dos homens.

Tenta entender que a maldade e o sofrimento não são provenientes de Deus, mas sim e só da nossa decaída condição humana. É um penoso limite com o qual toda a vida teremos que lidar. Mas, felizmente, não tão exageradamente penoso que nos leve ao desânimo e muito menos ao desespero. E, então, vendo as coisas pelo lado bom, a doença pode e deve ser aproveitada fazendo dela uma experiência de entrega nas mãos de Deus que sabe tirar o bem até do mal. Até do mal Deus pode tirar o bem.

Na aparição de julho de 1917, Maria de Fátima diz aos videntes estas textuais palavras: “sacrificai-vos”, isto é, “sofrei pelos pecadores”. Então isto quer dizer que, apesar de tudo, o sofrimento não é perdido nem inútil, mas acolhido, recolhido e distribuído por Deus segundo os desígnios da Sua infinita sabedoria. Percebemos, então, que dentro da economia da redenção, o sofrimento é útil, proveitoso e muito bom para nós, mesmo que seja cancro ou divórcio. Pode tornar-se benéfico, purificador, salvador e redentor. Isso mesmo. Mas, se não for aceite com fé, ele é um verdadeiro estorvo, desgraça, infortúnio, flagelo, mal, e por aí adiante.

Atenta bem nisto:
Jesus não gastou tempo a explicar o porquê ou o “porque não quê”; “porquê existe ou porquê não existe”; “porquê este sofrimento e porquê não outro”; “porquê a mim e porquê não a outro”. Também não gastou tempo a explicar “para quê”. Ora se Ele não andou por aí, tu faz o mesmo. Não olhes de esguelha para a cruz. Ganha tento e não entres pelo caminho das perguntas inúteis. Estas perguntas são becos tortuosos e muito escuros. Tais perguntas só te destroem e deixam-te sem qualquer proveito. Se tentas ser mesmo teimoso, ficas derrotado diante do inexplicável. O que Jesus Cristo fez foi um convite: “Se alguém Me quer seguir, tome a sua cruz e siga-me”. Tome o seu sofrimento e siga-me.

Jesus ocupou o Seu tempo a acompanhar e confortar os doentes com quem se cruzou, vencendo o mal com a iluminação pascal deixando o inexplicável sem explicação. Ora, se é inexplicável, não avances mais. Tem calma. Para por aí e faz cara alegre. Se teimas, acontece-te o pior que te pode acontecer que é sofrer sem sentido, sem valor, sofrer só, sofrer de arrenegado, de contrariado, estropiado, derrotado, desesperado, acaralhado, mal-amado e por aí adiante.

Aqui vai o meu conselho: “Valoriza-te e valoriza a dor”.
Nunca sofras só; sofre acompanhado com o Senhor do Calvário. E, se puderes – acredita que podes – aproxima-te de alguém que te entenda, de alguém com quem tu te entendas; mas não deixes que esse alguém tenha pena de ti. Não te deixes ser um coitadinho. Tu mereces melhor do que uma “compaixão coitadinha”. Mereces ajuda, compreensão, presença, amor, carinho e cuidados, mas não mereces ser coitadinho. Então, não te deixes acoitadar. Aviva a tua fé no Jesus que primeiro te amou, nos amou (SJ.4,19); no Jesus que conhece o teu nome, e se debruçou sobre ti e foi e vai à tua procura quando te desvias ou estás às escuras. Acredita que Ele interessa-se por ti e, felizmente, também por mim.

Acredita que o Seu amor por nós O impede de se desinteressar ou desligar daquilo que te acontece. Não faças figura de coitadinho, desgraçadinho ou velhinho. Eleva o teu pensamento, olha para o céu e encara a vida. Não tenhas pena do teu sofrimento nem da tua velhice.

Faz-te válido ou válida. Tu vales. E, se vales, assim validado e sem labéu, para o escarcéu, tira o véu, deixa o chapéu, olha para o céu e canta como os alentejanos cantavam: “Olhei para o céu, estava estrelado. Vi o Deus Menino em palhas deitado. Em palhas deitado, em palhas esquecido, filho duma rosa, dum cravo nascido”.

É tudo. É para ti. E não tens nada a pagar porque eu sinto-me bem a pregar e a escrever de graça.