É bastante usual a transformação nas tradições e desde há algum tempo que o Natal tem sido alvo de várias mudanças na maneira como é celebrado, tendo, na minha opinião, a mais recente, sido a mais drástica, motivada por mudanças no comportamento da sociedade que podem justificar tais transformações.

Primeiro e mais realçado, se outrora a vertente religiosa desta época festiva era o mais festejado e tido em conta, com a quase obrigatoriedade de juntar toda a família (tradicional) à volta da mesa e, muitas vezes, assistindo à tradicional missa do galo; atualmente o Natal é, principalmente pela geração mais jovem, visto por outro prisma.

O Natal passou a ser dedicado às crianças e à criação de um mundo fantástico na quadra festiva, maioritariamente direccionado a estas. No entanto, a quase ninguém passa despercebida a baixíssima taxa de natalidade em Portugal, o que altera a perspetiva natalícia. Cada vez, temos menos crianças, e isto, a meu ver, não é censurável. Cada vez mais o ser humano aumenta as suas ambições, maioritariamente profissionais e, muitas vezes, estas colidem com a intenção de construir família, já não sendo uma prioridade.

Este declive na taxa de natalidade pode também ser explicado pela cada vez mais difícil tarefa de proporcionar todas as oportunidades aos filhos, muitas vezes devido a fatores económicos. E, se Natal é nascimento, também neste aspeto há cada vez menos Natal.

Fruto da panóplia de alterações que a sociedade tem vindo a sofrer, temos assistido à génese de uma nova forma de celebração de Natal, menos romantizada e mais vivida como uma festividade para juntar amigos e família, como um jantar que reúne todos os que nos são queridos, e não tanto como celebração religiosa ou fomentação de uma realidade colorida para as crianças. E sem nos alongarmos na vertente comercial que domina esta quadra, referimos apenas que, desde há alguns anos a esta parte, hotéis há que, a preços nada convidativos e só acessíveis a uma elite social, proporcionam momentos de convívio e de alegria a um número seleccionado de hóspedes, recriando vivências natalícias.

Concluindo, a evolução das tradições é essencial e, muitas vezes, constitui uma melhoria em relação ao que nos era proposto antes. Com abertura para as novas tradições, suponho que a única coisa que não se altera é o sentimento constante de solidariedade e agradecimento pela existência daqueles que nos acompanham, num dia em que todos se reúnem, sendo ou não família, num sentimento de união e felicidade.

Ana Branco