Acredito claramente que toda e qualquer pessoa que se preocupe minimamente com o dia de amanhã, tenha feito várias vezes esta pergunta: como é que a atualidade se deixou chegar ao ponto em que está?

Poderíamos apontar muitos culpados. Poderíamos até condenar alguns mais que outros. Contudo, e num assunto que a todos diz respeito, seguramente, somos todos cúmplices.

Seria justo, ou até sensato, dizer que a guerra a que assistimos no Médio Oriente é, por ventura, da responsabilidade da Europa, ou de qualquer outra parte do mundo? Se justo ou não, não sou ninguém para julgar, mas o que é certo é que estamos todos envolvidos, direta ou indiretamente, num assumir e num dividir da culpabilidade.

Uma vez mais, e se tivermos em conta que nada no universo opera de forma isolada, é garantido haver duas verdades: a primeira, é que todo o ato, seja ele qual for, demonstra amor; a segunda, é que todos somos participantes em tudo, ao fazermos parte de uma coletividade chamada espécie humana.

No que ao primeiro ponto me refiro, já diziam os mestres espirituais que “o amor é tudo o que existe”. Logo, e como primeira e última expressão de tudo o que fazemos, poderíamos culpar o amor dos atos mais horrendos a que assistimos, pois ainda que num ato de amor distorcido, muitos grupos terroristas lutam e reivindicam algo em que acreditam e amam.

Podem ate não achar, mas o amor é tão poderoso como uma bomba atómica, e muitas “bombas de amor” têm sido lançadas ultimamente, com consequências muitos pesadas, e de efeito prolongado, para todos Nós.

E porquê todos Nós, e não só Eles?

Esta é a segunda parte da questão. Porque não existem “Nós” e “Eles”. Existem apenas “Um”. Uma civilização. Uma espécie. Um mundo.

O que me leva ao cerne desta reflexão – não andaremos Nós enganados no que respeita à nossa missão aqui na terra?

Muitos irão defender que a missão primária do Homem é a sobrevivência, e que isso não é nada mais, nada menos, que o nosso instinto básico. Mas, será mesmo assim?

Se assim fosse, e se fossemos primariamente dotados de instintos de sobrevivência, pois para sobreviver muitas vezes temos de ser “indiretamente” e “envergonhadamente” egoístas, porque será que existem grupos de pessoas preocupadas em socorrer as vítimas de um acidente? Porque será que damos a nossa vida para salvar uma criança que atravessa a estrada sem se aperceber do perigo? Porque será que um génio dedica todo o tempo da sua preciosa vida na procura de uma cura para uma doença letal? Porque será que o artista mexe e remexe, vezes sem fim, para criar a obra perfeita? Porque será que nos emocionamos ao ver todas estas coisas, quer magníficas, quer absurdamente deploráveis?

Meus amigos, se isto não são gestos de compaixão, bondade e amor puro, então estamos todos enganados quanto ao nosso propósito existencial.

Não estamos aqui somente para sobreviver, mas para criar e cocriar no nosso máximo potencial, e na nossa essência comum.

Talvez a resposta à pergunta inicial passe por tudo isto, e por creremos, erradamente, que somos seres afastados, isolados. Que somos nações diferentes. Que subsistimos numa “política da segregação”, como muitos nos vendem. Politicamente falando, somos Nós contra Eles, logo nós temos de sobreviver, dê por onde der.

Já dizia John Lyly há uns bons anos atrás, que “no amor e na guerra, vale tudo”, mas confundir amor com guerra não me parece sensato nem frutífero, numa civilização que diz querer prosperar e entregar aos jovens o nosso planeta de hoje e de amanhã. É esse o exemplo que queremos dar aos mais novos? Destruam-se uns aos outros para prosperar, porque o único caminho é sobreviver autonomamente?

Talvez as políticas devessem ser repensadas, talvez os líderes devessem rever ações e mandatos. Talvez todos Nós devêssemos perceber e assumir a nossa quota parte aqui.

Voltamos à idade do gelo, “politicamente” falando.

Temos os corações frios. Congelados de emoções. E patinamos em Nós mesmos, e nas nossas próprias tramas e crenças corrompidas de amor puro.

Talvez algum dia, para breve, possamos, Nós, desbloquear os corações gélidos por todo mundo?

Prefiro, tontamente, acreditar que sim.

Natacha Cabral