A Feira do Livro em Viana do Castelo abriu com um concerto de João Gigante (PHOLE). Na nossa frente o rio, o músico, a sua fotografia, um acordeão diatónico (concertina) e música, muita música, cheia de lugares, histórias e objetos que todos conhecemos, mas tornados novos. Vivos. O João, para além de cuidar, cria. Constrói.

O país teve/tem vários cuidadores e criadores que fizeram chegar aos nossos dias o folclore português como Michel Giacometti, Zeca Afonso, Tiago Pereira, Carlos Paredes, Vitorino, Rão Kyao, Danças Ocultas, Júlio Pereira, Celina da Piedade, Daniel Pereira Cristo, grupos folclóricos, grupos corais, projetos universitários e também programas de rádio (como é o caso dos que se podem ouvir na Antena 2), entre outros que me perdoarão a indelicadeza de não mencionar. São etnólogos, músicos ou grupos musicais e compositores que trouxeram, ou trazem, para a modernidade, memórias ligadas à tradição.

É também longa a lista de compositores eruditos que, pelos mais diversos motivos, se inspiraram e se apropriaram do folclore dos seus países (real ou imaginado), para comporem a sua obra.

Não é difícil encontrar folhas de sala de concertos de orquestra, onde se interpretam obras de Heitor Villa-Lobos, Joseph Haydn, Bela Bartók, Antonín Dvořák, Giuseppe Verdi, Astor Piazzolla, Arturo Márquez, entre tantos outros, inspiradas em melodias populares e, em Portugal, temos obras e/ou arranjos de Fernando Lopes-Graça, Viana da Mota, Luís de Freitas Branco, Frederico de Freitas, Eurico Carrapatoso, Fernando Lapa, Cândido Lima, Fernando Valente ou Pedro Santos, por exemplo, mas gostaria que fossem muitos mais e, acima de tudo, mais vezes interpretados.

Sei que não se pode dizer a um compositor o que criar e que a história da música, tal como a história da literatura, entre outras, fazem o seu caminho, mas correndo o risco de parecer nostálgica, penso que seria extraordinário ouvir mais obras sinfónicas inspiradas nas melodias populares que habitam o imaginário dos vianenses.

Mafalda Silva Rego