“Poupa nos tostões, terás milhões”. O provérbio é velho, mas bem atual e sempre merecedor de reflexão. Ainda mais preciso é o dito de Yoshio Teresawa, político japonês: “Você não fica rico com o que ganha, fica rico com o que poupa”. É verdade, não chega ganhar, e até em valores relevantes, se tudo acabar em gastos, tantas vezes desnecessários.

Dizem as estatísticas que o aforro em Portugal nunca desceu a níveis tão baixos. Segundo dados da “Pordata”, a poupança das famílias em % do PIB era de 10,9 em 1995, sendo de apenas 4,7 em 2018, isto é, em pouco mais de duas décadas baixou para mais de metade. Perante estes indicadores, os especialistas não deixam de alertar o governo e a população em geral para esta cultura de dispêndio por parte das famílias da quase totalidade dos rendimentos disponíveis. Consideram que tudo pode acabar mal, já que as crises das economias serão sempre uma realidade e que, em tempos de crise, os governos não estarão nas melhores condições para nos socorrer. Daí igualmente os apelos para que sejam criados fortes estímulos no sentido de que o pecúlio de cada um volte a níveis satisfatórios.

Tudo tem a sua lógica e “cada cabeça, cada sentença”, como também é usual ouvir-se. Perante este quadro, há os que dizem que nunca como agora houve tão poucos proveitos para contrabalançar despesas excessivas e obrigatórias, o que faz da poupança uma miragem e uma realidade apenas para os grandes vencimentos. Mas outros, recorrendo ao slogan de velhos tempos, defendem que, “ganhando apenas dez, no máximo só se deve gastar nove”. Depois ainda temos os governos e os agentes económicos a desejarem o não arrefecimento da economia, estimulando direta ou indiretamente o consumo.

É verdade que nunca o consumismo foi tão promovido, e o conceito do mealheiro tão pouco difundido. E é real que a sociedade, na base de uma propaganda que por vezes chega a ser indecorosa, está moldada para que o rendimento disponível seja todo gasto, com apelos do género “leve agora e pague depois” (mas pagamos sempre). Por sua vez, a banca, “espremendo o limão”, promove o crédito fácil e a baixo juro, disponibilizando dinheiro para tudo e mais alguma coisa (mas o empréstimo tem que ser liquidado). Não é menos verdade que os portugueses, pela sua melhor formação escolar e social, estão mais bem armados para saber resistir a publicidades fantasiosas, só que nem sempre há vontade nem paciência para refletir.

Conclusão, nesta conjuntura, não estarão criadas muitas condições para alterar o quadro dito sombrio que temos no domínio do aforro e do acautelamento do futuro. Mas há algo que, por experiência própria, devemos considerar, que é ignorar o aliciamento com propostas sedutoras que, por todos os meios, diariamente, chegam até nós. A tentação é muita, mas a decisão é nossa.