O médico António Martinho do Rosário faria hoje 100 anos. E, com ele, se assinala o Centenário do Nascimento de Bernardo Santareno. O homem, dedicou parte da sua vida profissional à assistência médica dos pescadores da frota bacalhoeira portuguesa, quer em terra, quer no mar, tendo embarcado nos arrastões Senhora do Mar, David Melgueiro e no navio hospital Gil Eannes.

O autor, debutou com os livros de poesia Morte na Raiz (1954), Romances do Mar (1955) e Os Olhos da Víbora (1957). E, a partir daí, e até 1979 (faleceu em 1980), escreveu o livro de crónicas Nos Mares do Fim do Mundo, verdadeiro lastro para as quinze peças de teatro que se lhe seguiram.

Descoberto e lançado por António Pedro, que o titulou de “o mais importante dramaturgo português de todos os tempos”, Santareno vê o Teatro Experimental do Porto (TEP) estrear a “A Promessa”, em 1960, cujo êxito e escândalo foram enormes: um círculo católico operário da cidade invicta manifesta-se contra a peça à porta do teatro; associados do TEP demitem-se; artigos de jornal exigem o lápis azul; o regime faz-lhes a vontade; a peça é proibida; o autor não mais parou. Neorrealista maior das nossas letras, Santareno escreveria a mais significativa dramaturgia do século XX português.

O médico psiquiatra que era (para além de cirurgião) e o dramaturgo de verve trágica e existencialista que, exorcizando-se a si próprio no papel, traçava uma radiografia poética da moral e dos costumes da sua época, pareceu sempre querer psicanalisar a alma lusitana através dos seus textos de teatro.

Profundamente humanista, António Martinho do Rosário colaborou com a Fundação Sain nos anos 60, durante a Guerra Colonial, trabalhando com veteranos portugueses cegos em combate. É nesse contexto que conhece a assistente social Fernanda Lapa, então estudante, que aspirava a fazer teatro e que o médico-dramaturgo incentivou.

Carismática e de férrea vontade, Fernanda Lapa levantou o Programa Nacional de Comemoração do Centenário de Bernardo Santareno, que se encontra a ser realizado e que bem merece ser continuado.