A modesta dimensão territorial de Portugal dificilmente deixaria imaginar que, na verdade, nele coexistem dois países: o país real, de todas as dificuldades e rigor – habitado pelo esmifrado cidadão comum -, e o país surreal, de infindos benefícios e eterna complacência – dominado pela alta-finança, pelos grandes grupos económicos e pela total ausência de escrúpulos que, quase transversalmente, lhes define o âmago mais intersticial.

É nesta infeliz dicotomia de concepção e, sobretudo, na intolerável dualidade de tratamento que lhe está subjacente, que se encontra substancial parte da radioactividade financeira que inquina o desenvolvimento sustentável do país real, funcionando como um pesado lastro que dificulta e ameaça a sua (nossa) definitiva emancipação financeira, bem como a prossecução plena dos princípios de justiça social emanados pela lei fundamental. O sol, quando nasce, sempre brilhou mais para uns do que para outros. E a penumbra da noite, quando chega, em bom rigor não chega para todos. Para alguns, até de noite o sol continua a brilhar. Para outros, até o dia é escuro…

No país real, não há dinheiro para contabilizar o tempo de serviço dos professores, nem para valorizar a carreira dos enfermeiros, nem para equipar hospitais, centros de saúde, esquadras ou escolas.

Não há dinheiro para nada que não seja estritamente essencial, ponto! Em claro contraste, no país surreal da banca, dos esquemas, do enriquecimento ilícito e dos mil-e-um malabarismos financeiros, as contas – particularmente as de subtrair – fazem-se em milhares de milhões de euros, na confortante certeza de que, ao mais pequeno deslize (sempre acidental, claro), lá estará o indulgente Estado, de mão estendida, disponível para assumir o ónus de acomodar no seu (nosso) orçamento as “imparidades” – eufemismo para “usurpações” – forjadas por uns, em benefício de outros, mas custeadas por todos nós, portugueses do país real.

Retenha o número: 18.4 mil milhões! Leia agora com todos os zeros que (literalmente) lhe são devidos: €18.400.000.000! É este o valor – a enormidade, a obscenidade! – que o Fundo de Resolução Bancária (leia-se “Estado”, entenda-se: todos nós) já injectou no corrupto sistema bancário desde 2008, e que inclui a concessão do novo “empréstimo” (estes eufemismos…) ao Novo Banco, no valor de €1.400.000.000, porque, lá está, é preciso “garantir a estabilidade do sistema bancário” custe o que custar. A quantia é equivalente ao somatório do orçamento de 2019 para a Educação e para a Saúde! Afinal, o que falta ao Estado não é dinheiro: é decoro, lucidez e, porque não, “túbaros” à moda antiga, para desempenhar eficazmente o seu inalienável papel de regulador sem ter que, posteriormente, pagar em triplo a sua incapacidade de o fazer.

Era suposto o Novo Banco ser o filet mignon do velho BES. Mas a treta da dicotomia “BES = banco mau” / “Novo Banco = banco bom” é isso mesmo: uma patranha, um logro, uma mentira de perna curta mas de factura comprida. Uma factura que todos estamos a assumir, ainda que garantam que “nem um euro dos contribuintes será gasto” no sorvedouro que tem sido a banca nacional. Não, um Novo Banco com velhos vícios não é um banco bom. É um poço sem fundo. É uma agremiação de delinquentes de colarinho branco que devoraram todo o bife do lombo, deixando-nos os ossos para roer e a conta por pagar. Inocentes, todos eles…