Já lá vão 45 anos em que, numa fresca manhã de abril, ouvia a Rádio France Inter anunciar a revolta dos capitães em Portugal. Estava em Paris e dirigia-me para o trabalho.
Uma alegria e uma emoção que nunca mais esqueço. Foi o culminar de uma vida de opressão e de medo, que nos anos sessenta reinava em cada um dos que como eu, só podíamos permanecer em Portugal três meses em cada ano. O surto emigratório foi tão grande naquela época, sobretudo para França, devido à guerra que mantínhamos nas colónias. Foram poucos os jovens da minha geração que não tentaram escapar a tão impiedoso destino.
Para além de todos os presos políticos da minha geração, e das gerações anteriores, impunha-se um símbolo da música portuguesa – Zeca Afonso. A sua poesia e o seu canto defendiam os castos valores da liberdade. Já lá vão 32 anos após a sua morte. Será sempre o inesquecível José Afonso, o nosso Zeca. Fica aqui a minha homenagem.
Libertou ideias, conceitos e criou outra realidade exterior, nos seus valores renovadores. Na luta a favor da dignidade repugnava-lhe “a arte” de ser burguês.
Tal como Jacques Brel, Georges Brassens ou ainda Léo Ferré, para só falar de franceses, o Zeca Afonso foi um idealista. Purificou o senso comum. Fez do seu inconformismo uma “autêntica” Bíblia para todos os que amam a paz, a fraternidade, a verdade, a igualdade, a justiça, o amor pela liberdade. Indiscutivelmente, representa uma parte muito importante da cultura poética portuguesa.
Muitas das suas canções são ainda hoje gravadas por artistas portugueses e estrangeiros. Calcula-se que subsistam atualmente mais de 200 versões. O que faz de Zeca Afonso um dos compositores portugueses mais divulgados a nível mundial. O seu trabalho é reconhecido e apreciado pelo país inteiro e sobretudo na vizinha Galiza. O cantor tem o seu nome ligado a várias ruas das cidades e aldeias de Portugal. E merece-o. Quanto a mim, foi o artista que nos tempos modernos mais lutou pela emancipação do homem português.
Neste 45º aniversário do 25 de Abril recordo-o com alguma saudade. Sempre que tenho oportunidade, ouço, canto e toco as suas canções. Lembram-me os tempos em que passava a fronteira portuguesa, de comboio, e não foram poucas… os pides de blusa branca e “crachat” ao peito, como se fossem os “senhores de todo o universo”, pareciam os donos deste país!
Recordar o 25 de Abril é também recordar Zeca Afonso e vice-versa. É honrar o seu perfil. É seguir com emoção as motivações e recordações que nos deixou a todos. Sobretudo, aquele seu talento, válido e inigualável, que imprimia na luta pela liberdade. Como professor, como artista galvanizou o país inteiro. Ele, como muitos dessa época, contribuiu também para que o nosso povo, o nosso país e, nomeadamente, os nossos jovens não passassem o que nós passamos. Foi, à sua maneira, um grande capitão de Abril que, tal como eles, merece ser recordado nesta data. Também contribuiu, a seu modo, para sanar a ditadura que nos oprimiu a todos – os mais velhos – durante muitos anos.
Fica apenas este registo, para que os mais jovens se lembrem que também foi preciso lutar, uns de uma maneira, outros de outra, para que possamos viver hoje em liberdade. Uma liberdade de pensamento, de ideais, de fraternidade, sobretudo a pensar nos nossos filhos e netos, o que antes não era possível.