Há exactamente dois meses, o país, a Europa e o resto do mundo entraram num Estado de Emergência (quase) global jamais vivido, nestas proporções, em qualquer outro momento da nossa milenar história. O fenómeno da globalização, intensificado neste século XXI, emprestou à praga de Covid-19 uma lógica de replicação exponencial única e, por essa razão, assustadoramente imprevisível no alcance e na dimensão. Este nosso mundo globalizado, sendo uma das maiores conquistas do Homem moderno e um dos maiores marcos da evolução da humanidade, encurta distâncias, mas também aproxima e multiplica riscos. Sabíamo-lo na teoria antes, sabemo-lo hoje na prática: um espirro na China pode significar uma pneumonia cá.

Com todos os modelos epidemiológicos a gritar “alerta vermelho” perante um possível descontrolo da situação, enterrámos (que remédio), a globalização de que o mundo, genericamente, tem beneficiado, e reduzimos todas as deslocações ao verdadeiramente essencial. A Europa fechou-se ao mundo. Portugal fechou-se à Europa. E nós fechámo-nos em casa em conventual isolamento, reféns do medo e da incerteza, enterrados em arroz, enlatados e papel higiénico, e privados de quase tudo de uma vida que julgávamos – ingénuos – ter como garantida, e de quase todos os contactos presenciais. Avós a verem netos à distância, separados por metros de ar livre ou por milímetros de vidro. Pais que não abraçam filhos, e filhos que não beijam as mães. Amigos e família que almoçam juntos por videoconferência, e que dessa forma festejam as suas efemérides. Um pouco admirável mundo novo, colocado do avesso, suspenso na incerteza. Não obstante todas as trancas à porta, firmes e resolutas, o “bicho assaltante”, sorrateiro, tacticista e implacável já cá estava. Aqui e em todo o lado. Não havia para onde fugir. Restava esperar…

E esperámos, claro. Uma semana, duas… Um mês, dois meses… Demasiados dias isolados, vividos no limiar do colapso mental, agarrados à TV, aos jornais e à internet, desejando notícias menos más. A expectativa era a de mitigar e diluir no tempo, o mais possível, a mais do que provável subida do número de infectados com Covid-19 e evitar a roptura hospitalar que se anunciava e que, acontecendo, elevaria um mau momento à condição de catástrofe. Horrorizados com as imagens de absoluto caos hospitalar vivido em Espanha ou em Itália, preparámo-nos para o pior que, certamente, haveria de vir e de nos acometer maciça e impiedosamente como lá, vestidos que somos da mesma matéria genética de qualquer espanhol, italiano ou chinês. Instalámos dezenas de hospitais de campanha, requisitámos equipamentos, médicos e enfermeiros ao sector privado, e esperámos o diabo de terço na mão. Mas o pior não veio, os hospitais de campanha permanecem vazios, e o diabo do caos, graças a Deus, apareceu despido do fulgor esperado. Graças a Deus mas, sobretudo, graças ao trabalho das nossas autoridades e a todos nós, pelo ímpar sentido cívico que soubemos assumir, em uníssono, desde a primeiríssima hora. Nobre povo, este, de uma nação valente e imortal.

A curva descendente da evolução do risco de contágio é inequívoca: o pior deste primeiro impacto já terá passado, e o céu carregado de justificados medos vai lentamente dando lugar ao sol da esperança, da saúde e da vida. Já sonhamos em abraçar os nossos pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos, em jantar fora ou com amigos, em casa. Talvez uma ida ao café, cinema ou teatro. A vida parece determinada em retomar à “normalidade” possível, embora altamente condicionada por tão peculiares circunstâncias. Mas esta segunda fase de desconfinamento que agora se inicia, embalada pelo sucesso da primeira, pode ter um efeito subversivo na instalação generalizada de uma falsa sensação de segurança, e suscitar a perigosa ilusão de que o perigo já passou, levando-nos a baixar a guarda e a arriscar. Não passou, nem passará tão cedo. Relaxar agora é arriscar voltar à estaca zero, reduzir a nada os sacrifícios já vividos, e desrespeitar a memória daqueles que pereceram. Resistir, sempre. Arriscar, jamais!

Ganhámos o primeiro jogo por 1-0, mas ainda falta muito campeonato para jogar, e o excesso de confiança pode revelar-se fatal. O Verão está à porta, mas o “bicho” não vai de férias…