O professor “provisório” do Ensino Secundário de antigamente começava por dar aulas no primeiro dia de Outubro e, depois, ficava Outubro, Novembro e Dezembro, sem receber!… Só lhe pagavam, esses primeiros três meses de atividade, no início do próximo ano, isto é, no primeiro dia de Janeiro.

É necessário, ainda, esclarecer que o professor “provisório” (mesmo que fosse licenciado), deixava de leccionar no fim do mês de Junho e ficava Julho, Agosto e Setembro sem ganhar um tostão, isto era no tempo de Salazar. Nessas “férias forçadas” esperava, novamente, pelo mês de Setembro para começar a dar aulas no dia um de Outubro, assim, sucessivamente, durante anos e anos…, é uma longa história…

Nesses três meses, eu vinha para a cidade do Porto à espera de ser chamado para Viana do Alentejo, onde gostava de viver e leccionar.

Como não tinha dinheiro disponível para pagar à mercearia, à padaria ou o leite ao “lavrador”, a fim de alimentar o meu primeiro filho, de meses de idade, recorria ao crédito. Todos os comerciantes de Viana do Alentejo conheciam a nossa história económica e fiavam, sempre, complacentemente, tudo o que fosse preciso, com um sorriso na face. Quando “recebia”, nos princípios de Janeiro, pagava a toda a gente. Viana do Alentejo, nesse e noutros aspectos, era única!…

Se por ventura, qualquer um de nós (homem, mulher e filho), adoecesse, recorríamos, aos préstimos do Dr. Garrido, ou aos do Sr. Horácio, da Farmácia.

Havia duas farmácias em Viana do Alentejo e um Hospital, com freirinhas, subsidiado pela Câmara Municipal. O Dr. Garrido sabia das minhas dificuldades, isto é, das nossas condições económicas e amais me levava um tostão pelas consultas – (pagar-lhe-ia com os meus “trabalhos”, a óleo e aguarela, de que ele gostava!)
O médico, o Manuel da Cuba (merceeiro), e o senhor António do Carmo — das fazendas e dos panos de roupa e, ainda, o senhor Batalha, do talho, da “carne de porco”, “borrego” e “enchidos” – eram os nossos fiadores, durante os primeiros três meses.

O dinheiro para o bolso, a fim de pagar os “cafés” ou os “lanches”, na Venda do senhor José Maia, provinham das economias (poucas), que eu conseguia recolher no período das “férias forçadas”…

Por outro lado, eu ainda ia dar umas aulas de desenho à vista. Desenho rigoroso. Projecções e Geometria descritiva ao Externato do padre Gil, pároco da freguesia – a fim dos seus alunos irem fazer os exames, de passagem de ano, ao Liceu de Évora.
Daí vinham uns patacos que davam, às vezes, para comprar umas rolas, codornizes, coelhos ou perdizes aos caçadores profissionais alentejanos, como o célebre Pataloco e outros…

A vida não era fácil – embora a água fosse de graça – (tínhamos uma fonte mesmo à frente da nossa casa) – a luz era de candeeiro a petróleo. A luz eléctrica, só entra em Viana à volta de 1952/53… Até então, o “Falquinhas”, funcionário da Câmara, percorria a vila, quase noite, com uma escada na mão, para acender os candeeiros, a petróleo, que estavam à esquina das principais ruas, dentro de umas lanternas de vidro…Também era o “pregoeiro” da vila…, isto é, colocando a mão junto à boca, gritava, bem alto: – “Quem encontrou algum “borrego” perdido na estrada é favor entregá-lo na Câmara…, dar-se-lhe-ão as suas alvíssaras!…”.

Já estava na cama, com a minha mulher, por vezes a chover, adormecia com aquele “pregão-musical” nos ouvidos. Era, então, que me lembrava que o Dr. Garrido, a pé, lá ia a algumas casas isoladas, no campo, por entre searas de trigo, sobreiros e oliveiras, de estetoscópio na bolsinha de cabedal castanho, acudir a algum doente, ou em estado de parto, ou coisa pior, com o marido que se tinha cortado com a foice ou a gadanha.
A maior parte das vezes não lhe pagavam um tostão. Não tinham!…, mais tarde, lá lhe iam levar um coelho, um frango, ou uma galinha… Em várias ocasiões, eu ouvia o Dr. Garrido, no Café Central, a explodir, em voz alta, a sua revolta pela indigna exploração que os latifundiários faziam aos trabalhadores do campo, seus vizinhos… Dizia: “Um dia vocês serão obrigados a pagar o que é justo a esses desgraçados, que trabalham de sol a sol, sem a devida recompensa!…” Eles, os latifundiários, sorriam, um pouco retorcidos, mas como precisavam dos seus serviços e da sua competência, como profissional da medicina, faziam-se de desentendidos e calavam-se.

Ele, logo de manhã, a pé, com a bolsinha castanha do estetoscópio, percorria toda a vila, antes de entrar no seu consultório, com uma fila de gente: homens, mulheres e crianças… Alguns, vejam lá, para arrancar dentes ou tratar de feridas ou dores, que só em Évora ou nos hospitais de Lisboa se resolveriam. Mas eles, pobres, nem sequer tinham dinheiro para comer, quanto mais para as consultas… Alguns dos remédios – ele dava-os de graça, provindo dos propagandistas, dos diferentes laboratórios, que o visitavam…

Andava sempre risonho, quantas vezes trabalhando, a medo, para arrancar dentes, fazer partos, etc., sem ajuda de enfermeiros…, apenas familiares, com ligeiros conhecimentos de uma “medicina” caseira e ancestral.

A sua mulher, uma distinta Senhora, dava aulas de francês, no Colégio do Externato do Padre Gil. Os dois tinham um filho, que esteve a estudar no Instituto Politécnico de Lisboa e, mais tarde, conseguiu leccionar como Professor Catedrático, numa Universidade Belga e a filha formou-se também na Capital…
A esposa e o Dr. Garrido já morreram, mas estou ainda a vê-lo, sempre a pé, faça chuva ou sol, com a bolsinha castanha, a percorrer o Alto e Baixo Alentejo para ajudar a quem a ele recorria, fossem ricos ou pobres.

Com o único carro de “Praça”, do senhor Custódio, lá ia à povoação de Aguiar, a Alvito, a Alcáçovas, a Oriola e sei lá …, atendia a todo o mundo…

O Dr. Garrido era de “esquerda”, como se diz hoje. Esteve na mesa de votos aquando das eleições em que concorreu o General Delgado. Por sua influência ou não, Viana do Alentejo foi a única vila do Alentejo onde a “oposição” ao regime ganhou.
Vieram alguns homens, à paisana, para prender pessoas, um deles, claro era o Dr. Garrido, mas na altura o Presidente Fragoso, da Câmara Municipal, disse-lhes: “Aqui toda a gente se dá bem! Se os levarem, eu mesmo, nesse dia, pedirei a minha demissão do cargo, embora seja salazarista”.

E mais não digo.

Nota:
Uma vez, a minha mulher, fez um parto dos meus filhos gémeos (o António e o Américo), naturais de Viana do Alentejo, no pequeno hospital das Freirinhas, situado nessa vila. Ao darem-lhe “alta” para regressar a casa – as coisas não correram bem… — ela tinha muita febre. Não se levantava da cama e não comia nada. Como senti o caso mal parado… — suspeitei de uma infecção.
Chamei o Dr. Garrido e, ele, observando-o disse-me: “Ela precisa, imediatamente, de ser tratada, mas, dado o seu estado geral, só com a “Terramicina”, haverá possibilidades de, talvez, resolver-se a questão!…”

A “Terramicina” era cara e também foi a primeira vez que o remédio, ainda muito recente, seria aplicado em Viana do Alentejo. Chamou o senhor Horácio, da farmácia, e disse-lhe para mandar vir, de Lisboa, nesse mesmo dia, o produto salvador…
O útero da minha mulher recusava-se a subir… Estava com medo! Este episódio dava-se no ano de 1958… O Dr. Garrido animou-me e acrescentou: “Agora vou a uma caçada às perdizes e aos coelhos com os cães, mas ao fim da tarde venho a sua casa, sem falta, para tratar da D. Helena”.

Estava uma noite terrível! Chovia bastante! Seriam, talvez, 21h30, quando ele chegou com as injecções, e, pedindo toalhas e água quente, esteve sozinho com ela algumas horas. Daí em diante começou a melhorar e, ainda hoje, vive a meu lado, com saúde.

Para fazerem uma pequena ideia do panorama paisagístico do Alentejo em que eu vivia publico no A Aurora do Lima um quadro a óleo, da minha autoria, em que uma das figuras pode muito bem ser o Dr. Garrido.