Desço a rua, chego à paragem de autocarro e sento-me no banco já gasto pelo tempo. À minha frente encontro o olhar de uma senhora idosa que vestia uma saia, uma blusa de flores, muito colorida e uns sapatos castanhos. Parecia-me simpática e bem educação.

Desejei-lhe as boas tardes. Ela respondeu-me de volta. Depois perguntou-me se o dia me tinha corrido bem. A partir desse momento, a conversa fluiu e tornou-se importante para nós. Afinal, tantas vezes entrei no elétrico amarelo que fazia aquela linha e nunca encontrara ninguém que me dirigisse um sorriso quanto mais uma conversa que me agradasse tanto. Só via caras de estranheza!

As conversas passaram de minutos a dias. Sempre que apanhava o elétrico amarelo, procurava, com o olhar, a minha nova amiga de viagem, tão distante na idade e tão próxima do que realmente me interessava. Aquele rosto já fazia parte da minha rotina. Às vezes, no elétrico, só existiam as nossas gargalhadas e caras de estranheza! A maioria das pessoas que viajava ali afundava os olhos no tablet, no telemóvel…

Hoje, não se conversa mais, somos todos estranhos! Existem hábitos que tenho como sendo portugueses e que, infelizmente, se vão perdendo. Um deles é o velho hábito de dizer “bom dia” àqueles que connosco cruzam o caminho e de partilhar dois dedos de conversa sempre que possível.

Adoro este hábito. Dá a sensação que pertencemos, de facto, a uma comunidade. É verdade, assumo que sinto uma sensação de aconchego quando encontro alguém que me dá os bons dias, me atira um sorriso rasgado, me dispensa alguns minutos de conversa, depois de um dia agitado, cansativo, cinzento. Não importa se nos conhecemos ou não. Adoro esse velho hábito. Adoro sentir que, apesar das manhãs de nevoeiro ou das tardes, muitas vezes, sombrias, há um sorriso largo que as aquece. E sim, também mantêm o hábito de conversar!

Até que, um dia, muito chuvoso, cheguei à paragem e não vi a minha companheira de conversa. Estranhei. Os dias foram passando e nunca mais a voltei a ver. Infelizmente, a minha companheira de conversas e risadas, partira. Dos meus olhos brotaram não lágrimas, não de tanto rir como naqueles dias que viajamos juntas, mas de tristeza.
Continuei a fazer a viagem diária no elétrico amarelo. Às vezes parecia que via visões daqueles momentos passados, mas o problema era mesmo esse, eram só visões!

Mariana Borlido