Eu próprio, já com residência em Paris-França, há vários anos, conheci, nos anos 70, a minha esposa aquando de férias em Portugal. Posteriormente, decidimos casar. Para ela se poder ausentar do país foi necessário, naquele época, pedir exoneração do cargo que vinha ocupando como professora primária e ainda ser submetida a um interrogatório pela P.I.D.E, em Coimbra, de onde era natural, para saberem dos seus meios financeiros para se poder ausentar.

Depois do casamento, viajamos com destino a Paris. Começaria por lecionar naquele país, uns anos mais tarde.

Para tal, foi necessário reunir cerca de 75 alunos que garantiam a colocação numa escola francesa, paga pelo Governo português e ligada ao Ministério da Educação. Decorriam os anos 70 (Convénios entre o Governo português e o de George Pompidou). Teríamos de escolher a localidade, não muito longe da nossa residência, mas onde vivessem muitos emigrantes portugueses e que tivessem interesse em que os filhos aprendessem a ler e escrever o português. Não faltavam! Eram as ordens que chegavam aos professores residentes naquela área consular e disponíveis por exoneração. E foi o que aconteceu.

Optámos por escolher Villeneuve de S. George, (onde viviam bastantes famílias portuguesas), nos arredores de Paris. Foram alguns, os fins de semana que passámos nesta localidade, procurando portugueses, nos mercados, à saída das igrejas e nas próprias residências. Depois de ter a lista formada e entregue no Consulado de Nogent-sur Marne, organismo que administrava aquela área, e este proceder às negociações com a parte francesa, que controlava os cursos de português. Reuniram todos os docentes, tendo como orientador responsável, o cônsul.

Depois dos ajustes entre as duas entidades, ficou acordado que haveria aulas às quartas-feiras à tarde e ao sábado todo o dia. Os alunos seriam divididos em três grupos, tendo cada grupo cerca de quatro horas semanais. A sala de aula só era cedida nesses dias por não haver aulas no sistema de ensino francês.

Os educandos, além de aprenderem o Português tinham também as disciplinas de História e Geografia.

No fim do ano letivo e, preparados para a 4.ª classe eram submetidos a exame com júri numa escola da região, com professores que lecionavam noutros locais daquela área consular .

Foram apenas três anos de serviço, entretanto, aconteceu o 25 de Abril em Portugal e ocorreu o seu regresso definitivo, em 1975. Foi logo imediatamente colocada numa escola do distrito de Viana do Castelo.

Fiquei eu, ainda por alguns tempos, a lecionar português no C.E.S. Pierre Curie, em Fresnes-94, e mais tarde, já depois de alguma calma pós revolução, no ano 1976, ocorreu, também, o meu retorno concludente à Pátria. Precisamente dois anos após o 25 de Abril.
Concorri, depois, à Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo e ali fui colocado a lecionar francês, cujas habilitações me foram reconhecidas após ter obtido vários diplomas na Alliance Française, em Paris, e uma vivência de 20 anos.

Posteriormente, transitei para a Escola Secundária St.ª Maria Maior de Viana do Castelo, mas desta vez, integrado na Ação Social Escolar, organismo que atribuía os subsídios aos alunos mais carenciados daquele estabelecimento de ensino, e criado, na época, pelo então ministro de Educação, Sottomayor Cardia.

Se a memória não me trai, e, pelo que sei, aqui fica um pouco do que existiu e como se iniciou o ensino de português, em França.

Foto: Villeneuve de S. George, vista aérea.