Uma trovoada de Verão traz consigo um milagre de renovação da Terra e do ser humano.

Tudo começa quando um sentimento de tranquilidade se insinua na minha consciência. De repente fica tudo calmo. Os pássaros não chilreiam. As folhas não restolham. Os insetos não cantam.

O ar, que todo o dia esteve quente, fica pesado. Paira sobre as árvores, empurra as corolas das flores para o solo, instala-se nos meus ombros.

Com uma vaga sensação de desconforto, dirijo-me para a janela. Lá ao fundo, a oeste, encontra-se a resposta: nuvens que formam um cume de gigantescas torres brancas, erguidas contra o céu azul.

A sua penetrante brancura é de curta duração. Não tarda muito que as coroas das malvas se tornem achatadas como topos de bigorna e as nuvens revelem a sua natureza mais escura. Impõem-se ao sol do fim da tarde e o dia escurece logo. Depois uma rajada de vento chicoteia a poeira ao longo da estrada, num aviso inamistoso daquilo que se vai seguir. Uma porta bate com estrondo, as cortinas esvoaçam dentro da sala. Corro a fechar as janelas. Trovões começam a ribombar ao longe.

As primeiras gotas de chuva são enormes. Salpicam a poeira e imprimem marcas nas vidraças. Ressoam no cano da chaminé e no telhado.

O ritmo acelera-se; as grossas bagas de chuva vão-se transformando numa cortina espessa. O som é o de um rufar de tambores e as bátegas são um exército em marcha pelos campos e pelos telhados.

É então que o primeiro raio do relâmpago trespassa a terra. É o ponto de exclamação do céu. A tempestade está aí!

Os trovões sacodem as vidraças e fazem o cão esconder-se debaixo da cama. O ribombar do trovão seguinte é ainda mais próximo. Faz-me eriçar os cabelos na nuca e afasto-me da janela.

A chuva transforma-se então em torrente, caprichosamente arremessada pelo vento que se levanta. Só se vê água. Ando pelas janelas da casa, e que maravilha como o lilás se curva ao assalto, como os lírios dobram e os degraus da colina se transformam em queda de água recente. Agora são as pedras de granizo que martelam no telhado.

A tempestade começa a passar. A tensão libertou-se da atmosfera. Saio. Ao meu redor paira uma sensação de frescura que me dá as boas-vindas.

Respiro fundo e observo os raios de sol, rompendo por entre as nuvens.

Tal como a terra, sinto-me renascida, com o espírito purificado. Invade-me uma paz infinita. Minhas preocupações foram para longe, levadas pelo esplendor da tempestade.

 

FCF – Filomena Costa Freitas