O grande calcanhar-de-aquiles da humanidade em geral, das instituições mais importantes de qualquer sociedade, das religiões e, em especial, da Igreja Católica tem um nome: sexo, sexualidade.

E sabe-se porquê. Porque o sexo é uma energia criadora, fascinante, divina, bela e deliciosa como o paraíso e jamais alguém ganhará a batalha final senão a Natureza e o Deus Criador. Mas assim não foi entendido pelos fanáticos cristãos do século IV e seguintes, como vamos ver.

O ser humano tem duas energias básicas inerentes às funções essenciais e primordiais nos seres vivos: a da reprodução e crescimento de cada espécie animal (o sexo e tudo o mais, físico e mental, imprescindível nesse objetivo) e a manutenção da vida de cada indivíduo, por intermédio de vários atos aparentemente banais como alimentar-se, beber água, respirar ares puros, ter hábitos higiénicos e proteger-se contra doenças e os ataques das feras e do próprio ser humano (o tal instinto de sobrevivência). Como sabemos, essas duas principais funções e atos que as compõem foram grandemente beneficiadas pela Natureza e pelo Deus criador, que as fez acompanhar de um enorme prazer. Porque, é uma dedução lógica, se esse prazer não existisse em qualquer dessas duas funções maiores, a humanidade e as demais espécies animais não existiriam, simplesmente. Na verdade, quem se prestaria ao trabalho desinteressante de procriar, às dores de parto, às canseiras da educação e criação da prole, se isso não fosse acompanhado de um desejo nunca totalmente satisfeito e de um prazer paradisíaco? Quem haveria de suar em bica ou de se cansar até à exaustão nas duras tarefas da caça, da pesca ou da agricultura na produção de alimentos ou, até, nas desagradáveis tarefas da preparação e confeção de alimentos e bebidas, se não existisse o apetite e o prazer de se alimentar?

Ora, parafraseando uma sentença antiga (que já vem dos tempos eternos) é altura de afirmar, alto e em bom som: não destrua o Homem o que Deus criou (ou a Natureza).

O ano de 313 D.C., nos princípios do Século IV portanto – representa talvez a data mais importante para o Cristianismo, pois foi, nessa data, que o Imperador Constantino decretou a legalização dessa religião no Império Romano, ou seja, quase de um momento para o outro (tempos depois viria a oficialização do cristianismo, no ano 390/391), os cristãos deixaram de ser vítimas, de ser perseguidos, na maioria dos reinos do mundo até então conhecido. Infelizmente, porém, o excesso de poder, as honrarias e riquezas, o fanatismo doentio, tudo numa mistura – eu diria – satânica, haveria de conduzir os anteriores perseguidos a perseguidores por simples questões ideológicas ou falsamente teológicas. Em breve, repito, a boa nova de Cristo e a sã doutrina seriam sacrificadas, em parte, ao gosto da soberba intelectual e do radicalismo agressivo.

Aconteceu que, umas décadas após o ano 313, aparecem três figuras incontornáveis que se notabilizaram na Igreja pela sua inteligência, cultura e determinação, mas, infelizmente, também pelo fanatismo doutrinal e pela intolerância, especialmente no respeitante à sexualidade: Ambrósio, nascido perto do ano 339, em Treveris (Trier, em alemão), que acabou por ser nomeado Arcebispo de Milão; Jerónimo, vindo da região da Dalmácia (Panónia), na moderna Hungria, nascido em 347, que se notabilizou pela tradução dos textos bíblicos do grego e hebraico para o latim (a bíblia que recebeu o nome de Vulgata); e Agostinho, nascido em 354 no Norte de África, que se tornou Bispo de Hipona, atual Argélia.

Estas três personagens, de grande craveira intelectual – repito – todas foram declaradas santas e doutores da Igreja. Eram ascetas e o mais jovem dos três, Agostinho, foi o mais “depravado” e atiradiço. Aos 19 anos foi pai de Adeodato (dado a Deus), mas a mãe deste era a concubina de Agostinho. (Concubina era uma espécie de amante na linguagem atual). Por pressão da Mãe de Agostinho que desejava para o filho uma mulher “mais vantajosa”, ele acabou por se desligar dela, ficando Adeodato à proteção do pai Agostinho. (Hoje diríamos que se tratou de um divórcio de comum acordo ou, à moda judaica, de um repúdio). Depois deste acordo, Agostinho foi nomeado Bispo de Hipona, tendo com ele o filho Adeodato. Sendo Agostinho muito mulherengo, na sua juventude, e em confronto com a sua conversão moral, acabou por passar o resto da sua vida, cerca de mais 30 anos, a confessar os seus “pecados carnais” e por escrito, num livro chamado “Confissões”. Além de um grande filósofo, também foi um empedernido radical, tal como o santo mais irritadiço da história do cristianismo, o eremita Jerónimo, com ideias de abstinência em matéria sexual.

Escreveu Agostinho: “O adúltero é também aquele que ama com demasiada paixão a sua mulher”. Leram bem? E isto é uma pequena amostra. (Para continuar)

(manuelribeirojor@gmail.com)