O velho filósofo estava sentado num banco do jardim da cidade onde vivia, numa cativante tarde primaveril, a observar o ambiente da maravilha, que é o despertar da natureza, aliado a uma espécie de meditação interior.

­- Todos desejamos progredir na vida. O crescer converte-se numa sensação agradável. O facto de nos tornarmos independentes traz dignidade. Apesar disso, há muitas pessoas que não conseguem encontrar o caminho favorecido pelo bom êxito. E muitas são, sem dúvida, as variáveis que intercedem nesse processo e criam circunstancionalismos para o sucesso, ou para o fracasso. – Espreguiçou-se, esticou as pernas. Suspirou, profundamente, continuando a pensar. – Todos aqueles que ainda não conseguiram o que desejam, é hora de reflectir, observar e perceber a diferença que existe entre a verdade e a realidade.

Deu-lhe um ataque de tosse. Terminada essa convulsão, e após limpar o nariz das mucosidades, voltou a raciocinar.

– As palavras verdade e realidade parecem dizer a mesma coisa. Na essência, são diferentes. As crenças geram atitudes, interferem nas escolhas e trazem resultados reais, que somos forçados a colher e que podem tornar-se positivos ou negativos. A vida tem leis que agem a favor do progresso do mundo e dos seres. A fartura dessas leis, ao regularem as pessoas do universo, mostram a sua variada riqueza e oferecem-nos, no quotidiano, inúmeras condições de crescimento. Para isso, teremos de interagir, harmonicamente, com elas, procurando entender como funcionam esses normativos das gentes que formam o globo terrestre.

O franjar da tarde começava a diminuir. O idoso, amigo do saber, prosseguia na sua íntima introspecção.

– A prosperidade, na vertente de se obter um destino favorável, portanto, sem os ambíguos afastamentos que podem ser dados pela natureza é, sem dúvida, mais do que qualquer sucesso financeiro. O dinheiro é só valor. Organiza, porém,  a troca de mercadorias na sociedade, permitindo ao homem a dignidade do trabalho e do sustento da família, além de possibilitar pesquisas na busca de novos conhecimentos.

Quando o dia começava a declinar, aproximando-se a tardinha, uma jovem de expressão simpática, gestos graciosos, mostrando-se de coração aberto, sentou-se a seu lado, interrompendo o silêncio do pensador.

– Porque sou tão vazia? – perguntou, ao ancião, a origem do seu conflito existencial, que passou a dividir com ele no banco do jardim.

Normalmente a moça não falava com estranhos. Mas como a tristeza era indefinida, resolveu quebrar algumas regras da sua vida, na tentativa de encontrar uma resposta de alguém vivido, como aparentava aquele homem.

O filósofo arqueou as sobrancelhas. Mudou, lentamente, de posição, para encontrar o jeito certo de responder. Pensou, um pouco, como deveria pronunciar-se.

– Ah! Miseráveis seguidores da internet, netos da cultura mediática, à distância. A bolha ilusória poderá explodir, revelando a alma vazia do mundo de uma época de jovens desorientados. Não! – continuou a reflectir. – Não deverá a resposta parece tão amarga. Poderei afirmar, então, que o fanatismo psicótico do culto à beleza e à estética excessiva estão impondo um terrível dilema para a nova geração. Como possuir uma alma pura em época vazia de valores?

Nada disso. Negou o filósofo ao seu pensamento. Seria drástico demais.

– Argumentarei – continuou a pensar – que o marketing moderno, o endeusamento dos produtos, as megacorporações estão a dominar a ordem mundial. A busca pela satisfação material e o resultado instantâneo são mais fortes que a contemplação e o aprimoramento espiritual. A juventude, por norma, é mais egoísta e perversa do que em outras épocas.

– Não! – resmungou para si. – A rapariga começou a ficar impaciente perante o silêncio do isoso.

– Direi – prosseguiu – que a facilidade da informação instantânea da internet gera a preguiça intelectual e a lenta agonia dos mais diferentes estudos, provocando uma época de incertezas e, por consequência, a cultura fragmentada, terminando em jovens robóticos de si mesmos.

Ainda assim o filósofo não ficou satisfeito.

– Já sei! – continuou. – Vou dizer que a percepção do vazio é, na verdade, o dom supremo, pois ao consciencializar-se dele o indivíduo abre-se para novos conhecimentos, alterando a sua difícil existência na Terra. – Sorrindo. – Mas… – pausa – não vou argumentar nada disso.

Virou-se para a rapariga. Olhou-a com uma forte intensidade. Ela notou a força interior daquele homem. Era absolutamente desconcertante.

– Querida, ainda não encontraste o amor. A vida é generosa. Com o aparecimento de certos factos, que vão revelar-se, irás despertar para a verdade da existência humana. Trabalha em busca da tua paz, mas aceita o teu semelhante. Cuida da saúde, respeitando os limites permitidos. Não te deixes abater pelas desilusões e falsos amigos. – Iniciou a resposta, pegando numa das mãos da desconhecida.  – Encontrarás, de certeza, esse doce sentimento quando menos o esperares. Logo que isso acontecer todos os pontos cardeais do teu vazio e da tua ansiedade serão preenchidos. Sejas paciente. O amor, de um momento para o outro, vai tornar-se visível.

Então, o filósofo levantou-se. Caminhou até se perder no manto negro da noite que acabara de chegar. Desapareceu, aos poucos, como se fosse uma imagem que nunca existiu.

A moça percebeu que em tempo algum o veria mais. Interiorizou que certos acontecimentos mágicos surgem, apenas, uma vez na vida.

– O meu amor – questionou-se – poderá ser alguém que nascerá de algum lugar indefinido. Sim! Uma pessoa que vai aparecer, no tempo, como a coisa mais simples da vida.

 

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.