dade. O fisco, que tantas vezes não cobra milhões de euros que tanta falta fazem aos cofres do Estado, está preocupado com a cobrança do IMI (Imposto Municipal Sobre Imóveis) ao Gil Eannes. Sim, porque no entender do fisco, trata-se de um imóvel!!!

Sobre o Gil Eannes já muito se disse, mas é bom relembrá-lo, para que alguém, que tantas vezes não faz o que deveria fazer, deite mãos à consciência e não contribua para desmotivar quem neste país aposta em preservar património e não deixe silenciar o passado, que de tão grandioso não pode ser olvidado.

Porque este navio Hospital tinha desempenhado nobre missão na proteção dos nossos pescadores nos mares da Terra Nova, quando no seu fim de vida estava para ser desmantelado e vendido como sucata, a partir de um forte movimento criado na nossa cidade, foi resgatado ao sucateiro que o tinha adquirido, mas que dele só se desfez recuperando todo o dinheiro investido, mais o lucro que entendeu como devido.

Regressado a Viana, foi a solidariedade dos ENVC, de pequenos empreiteiros, de agentes comerciais e cidadãos anónimos que, com trabalho, materiais e outros contributos o recuperaram para lhe dar dignidade e enobrecer esta Viana de tão longas tradições marítimas.

Mas a empreitada está longe de concluída, apesar de o navio se apresentar hoje com uma recuperação respeitadora do seu funcionamento original em todas as valências, que se pode considerar notável. Ainda há muito nele para fazer, e a sua regular manutenção custa somas impressionantes (veremos quando tiver que docar novamente para tratamento de casco), daí que só possa ser mantido com muito entusiasmo e gozando das boas vontades dos poderes e dos cidadãos em geral.

Culturalmente, o Gil Eannes é hoje um dos mais emblemáticos e ricos patrimónios da cidade. Tanta gente vem até nós para o visitar e fala dele gabando-o; tanta gente incentiva a sua manutenção e, especialmente os que se ligam ao mar e à construção naval, sentem orgulho por o verem na doca. Mas parece que alguém tem ciúmes de que assim seja.

Nesta Viana, que José Rosa Araújo tantas vezes apelidou de acabrunhada e da pequena intriga (que não o é tanto), parece que há poderes ocultos que apostam em manter o velho e frear o novo.

O Gil Eannes está obrigado a pagar 1700 € de IMI, quando até está fundeado num espaço que não pertence à Fundação que o sustenta. É razão para dizer que, depois de o ter resgatado in extremis e de o ter recuperado estoicamente, alguém está apostado em pôr fim ao sonho de o ver por muito tempo no espaço que lhe pertence, como símbolo maior na assistência a pescadores que protagonizaram atos de intrepidez nos mares frios e traiçoeiros da Terra Nova. Alguém está apostado em enviá-lo de novo para a sucata, para que deixe de ser um dos maiores símbolos da construção naval em Viana do Castelo. Haja apreço pelo esforço de tanta e tanta gente que, empenhadamente, quer que o passado seja lembrado e que Viana progrida e não durma, como muito se tem dito.

GFM