O candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, fala à imprensa.

Se o medo é filho da tirania, da coacção e da ortodoxia política, social e religiosa, a miséria é mãe da demagogia, do populismo, da ilusão, dos mitos e dos engodos fáceis, consubstanciando-se, por isso, enquanto terreno fértil para o florescimento, quais ervas daninhas, dos movimentos políticos e sociais que fazem do vislumbre do caos disseminado o seu mais eficaz e letal argumento. Quando se junta, então, o medo e a miséria num mesmo espaço, num mesmo tempo e num mesmo público, associa-se a fome à vontade de comer, abrindo espaço à emergência de musculadas e implacáveis ditaduras (por princípio populistas e demagógicas) servidas pelos mais exímios chefs de cuisine de serviço que nos prometem servir-nos o que exigimos ter: o impossível.

A mais do que provável vitória de Bolsonaro no sufrágio da 2ª volta das presidenciais brasileiras – a recusa em participar em qualquer tipo de debate é disso o melhor indicador – é apenas o último episódio, porventura o mais mediático e talvez o mais rasca – se não mesmo execrável -, de uma série de outros que, um pouco por todo o globo, se têm sucedido, repetido e reforçado, ameaçando os valores democráticos universais invariavelmente conquistados à custa de muito sangue, suor e lágrimas. A problemática está, pois, longe de estar circunscrita ao Brasil. Embora de forma e cheiro diferentes, muitos outros países têm acolhido como sua a mesma corrosiva substância, assente na matriz xenófoba, violenta, sexista, temente a Deus e pseudo-impoluta que tão bem os caracteriza, e que se percebe completamente imune à típica dicotomia dogmática “esquerda-direita”. Não há, na verdade, ditadores de esquerda, de direita ou de um qualquer dos seus extremos. Há apenas ditadores. Ponto.
Países como os EUA, a Rússia, as Filipinas, a Venezuela, ou, por “cá”, a Hungria, a Áustria, a Dinamarca, a Finlândia, a Polónia, a Turquia ou mesmo a Itália deram já o mote, materializando com o seu próprio exemplo o risco mais do que verosímil de assistirmos à disseminação generalizada de uma nova ordem mundial que, uma vez instalada, fará um hard reset à realidade tal como a conhecemos, devolvendo-nos às trevas de que, desde a idade média, temos fugido. É este o risco último que todos corremos. E não é de somenos…

Afirmar, sem mais, que “a história se repete” é, hoje, não só um lugar-comum, gasto e inconsequente, como, em muitos casos, um facto já consumado. Como se constata, neste presente de horizontes soturnos o pior da nossa história (recente) está mesmo a repetir-se. Mas o verdadeiramente arrepiante é perceber que tal só é possível porque há milhões de cidadãos que repudiam (e bem) a corrupção generalizada, mas que paradoxalmente aceitam, exigem e elegem, em nome do seu combate, uma série de ditadores populistas, cujo discurso de ódio que faria corar de vergonha o próprio Hitler de finais dos anos 30. Nem esse demónio, de início, foi tão longe, já que, é bom lembrar, o Holocausto não começou com as câmaras de gás, antes com a mesma manipulação de massas que hoje acontece, em nome de um pretenso bem maior.

Tal como sucedeu na década de 40 do século passado, o Inferno volta a estar, de novo, vazio. Todos os demónios estão aqui, cá em cima, entre nós…