Ao fazer uma ronda pelos canais de cinema, chamou-me a atenção um filme recente, de género comédia romântica, com um título marcadamente machista, que se confirmou, face à componente histórica e a um determinado modelo que prevaleceu durante o século XX, e que potenciou o fenómeno revolucionário do “maio de 68”. 

O filme, intitulado “O Manual da Boa Esposa”, faz menção a uma circunstância que desconhecia totalmente, já que refere a existência, nos anos 60, de escolas dotadas de meios pedagógicos e logísticos vocacionadas para preparar jovens com o objetivo de as tornar exemplares donas de casa, imbuídas num mantra de dedicação e devoção ao seu marido, formatando-as para uma pose elegante, além de serem adestradas para as atribuições provenientes do trabalho doméstico.

 Em conformidade com estes princípios, o introito deste filme francês inicia-se com a chegada de 15 adolescentes do sexo feminino às instalações do “Instituto das artes domésticas Van der Beck”, considerado um dos mais prestigiados no ramo. Gerido por uma bicéfala administração, da qual faz parte a flausina Paulette – que coordena as premissas teóricas e a aplicação do programa – e o seu frígido marido Robert – que gere financeiramente a mesma –, o staff conta ainda com a colaboração da frustrada irmã de Robert, Gilberte, que trata da vertente culinária, e também pela impertinente freira Madre Therese, que incute disciplina e fornece outro tipo de dicas úteis às formandas. 

Com a apresentação das jovens à equipa formadora, estas são informadas dos sete pilares que regem a trave-mestra da instituição, com Paulette a pregar uma léria maniqueísta e redutora, frisando a necessidade imperiosa da mulher servir inequivocamente o seu marido, independentemente da conduta que este demonstra perante elas ou a sociedade.    

Com a formação a correr sem perturbações, nos primeiros dois dias, entre algumas jovens, é visível um certo espírito irreverente e libertador, intuindo ventos de mudança, rotundamente opostos às orientações falaciosas e ancestrais propagados por aquela organização.  

Contudo, no dia seguinte, a estrutura definha clamorosamente, com a insólita e repentina morte de Robert, gerando consternação na sua esposa Paulette e na sua irmã Gilberte, com as jovens mais atrevidas a aproveitarem esta perturbação no sistema para divagarem numa onda entusiasta e lasciva.  

Mal refeitas deste infortúnio, Paulette e Gilberte descobrem, pela secretária de Robert, que a escola está na penúria, cheia de dividas devido a negócios ruinosos resultantes de más opções financeiras deste.        

Ambas desesperadas, dirigem-se a uma das entidades credoras, onde Paulette se depara com André, com quem tinha tido uma sentida paixão, a exercer as funções de diretor do banco. Este, ao conceder novo empréstimo, proporciona às proprietárias um novo alento para as suas vidas, seduzindo ao mesmo tempo, com um gesto cativante, Paulette, reavivando o namoro perdido. 

Paulette, completamente encantada com André, começa paulatinamente a pôr em causa o estendal doutrinário que tanto apregoou naquela instância de referência, decidindo partir rumo a Paris com toda a comitiva estudantil, com o objetivo de participarem no icónico “Maio de 68”, para, justamente, reivindicarem a igualdade de género, como um dos baluartes mais decisivos dos direitos humanos.