Vou lá abaixo ver o giro da água. Aproveito para olhar as últimas rosas à beira do canastro. Se tirar as velhas, ainda nascem novas. São rosas de muitas cores, plantadas há anos por mãos que perfumam a memória. 

Ao passar pelo tanque pequeno, dou com os olhos numa rã, da cor de musgo verde salpicado de pintas pretas, tão bem desenhadas que parecia obra de artista. Descansava à superfície da água sobre uma folha seca, como se andasse de jangada. Logo me veio à memória aquele menino que abria rãs, engendrava canalizações com os pés das folhas de abóbora que são ocos, fazia bolas de trapos, gaitas de palha centeia, jogava ao pião, corria tudo de arco e guincheta, construía uma camioneta de pau com travões e barquinhos de papel ou veleiros de cortiça. Caçava melros e pardais com caniçadas, que alojava temporariamente em gaiolas, pois não gostava de lhes roubar a liberdade. Não tinha medo dos bichos, incluindo cobras e lagartos, que dizia serem seus irmãos naturais. Já mais graúdo, o rio era a sua atração ao fim da tarde, o que que lhe valeu algumas vergastadas nas pernas pelas mãos de nossa mãe.  Tinha um pombal com pombos-correio e gabava-se de ter uma pombinha que ganhara um segundo prémio numa largada em Madrid. 

Mas foi o facto de o ver há dias, entu-siasmado, à volta da rã sarapintada que ali apareceu ninguém sabe como, procurando fotografá-la, que me trouxe à memória o menino cirurgião que abria rãs. Quando éramos crianças, havia muitas no tanque grande ou no rego lodoso da beira do campo do meio. Já rapaz, agarrava uma rã, anestesiava-a, colocando uma bolinha de algodão embebida em éter sobre a cabecita, estendia-a numa tábua de barriga para cima, fixava-lhe as patas com alfinetes e, com toda a habilidade cirúrgica, abria a pele do bichinho de alto a baixo, com a ponta bem afiada de um canivete e uma tesoura pequenina. Chamava-nos então, para que víssemos as suas entranhas e o coraçãozito a bater, do tamanho de uma semente de romã. De seguida, munido de uma pinça e de uma agulha de costura, suturava-lhe cuidadosamente a pele da barriga e esperava que ela acordasse. Mantinha-a alguns momentos no recobro e voltava a pô-la na água com todo o jeitinho. Estupefactos, sentíamos todos uma grande alegria ao vê-la nadar, como se nada tivesse acontecido.

Foi talvez aqui… que começou a aprender a olhar tão bem o coração dos homens. 

Eva Cruz