Recentemente, em Espanha, o tribunal sancionou uma decisão da Galp de poder descontar no tempo de serviço as pausas dos trabalhadores para tomar café ou fumar. O assunto, fugidiamente abordado pela imprensa, quase passou despercebido entre nós. Mas a questão é bem mais séria do que se julga. Ao longo do tempo, particularmente na Europa, as condições de trabalho fizeram um percurso de evolução. Tal aconteceu por duas razões principais: a primeira por força da organização do Movimento Operário e a segunda porque os próprios empresários compreenderam que dispor de colaboradores sem direitos era pouco vantajoso.

Trabalhei mais de duas décadas em organização laboral, tendo necessidade de me identificar com as sabedorias dos tempos e das técnicas para aumentar a produtividade, sempre também com vantagens no esforço de quem labora. Tal não constituiu problema de maior, até porque a operacionalidade no mundo das empresas há muito tempo que está suficientemente estudada. Há princípios básicos que não carecem de formação para bem os assimilar. Um deles são as condições mínimas de laboração. E aí também estão incluídas as pausas para recuperação física e intelectual de quem produz.

Em qualquer atividade, numa escala de 0 a 5, os índices de aplicação partem sempre do zero até atingir os 5 do topo, mas logo de seguida, por fadiga instalada, começam a decrescer, quase voltando ao ponto de partida. E é aí que a pequena paragem, acompanhada de suplementos alimentares, faz o seu efeito, voltando a curva a crescer para níveis superiores. Naturalmente, este ciclo vai-se repetindo ao longo do dia. Não é por acaso que já nas décadas de 1950/60, os emigrantes portugueses em França, aqueles que tinham a sorte de trabalhar em fábricas, se gabavam de ter pequenas pausas de serviço, para que lhes fosse fornecido chá ou café, sanduiches e até fruta.

Para produzir não basta a mecanização e a funcionalidade cadenciada, porque o executante não é um robot. Há mais para além de tudo isso. E o que admira é que depois de tantos avanços nas condições de trabalho se queira voltar quase ao ponto de partida. Dir-me-ão que há abusos e que estes são nocivos. Obviamente que há. Mas há formas de os corrigir. E isso não passa por fazer regredir direitos e proveitos. Afinal, depois de tanto progresso, com a robotização a tomar conta da produção, parece que quem trabalha está sempre condenado a não ter emprego ou ter emprego pior.