Era uma vez……!

Com a idade avançada, é natural que se vão perdendo algumas das memórias, mas felizmente do nosso casamento ainda há recordações lindas e queridas.

Casamos a seis de Outubro de 1957 na igreja da Meadela, era domingo. Foi um casamento simples do tempo em que a igreja não tinha fanfarra apostólica e nós éramos dois pombinhos com 20 anos.

A simplicidade do casamento baseava-se intensamente na vontade de dormir no quentinho, e o inverno prestes a iniciar.

O noivo, eu, de barba escanhoada no Salão Avenida, e uma noiva linda, ambos apresentavam-se muito fresquinhos de banho caseiro.

O casamento iniciou-se na casa da noiva, no Montinho, e dali sairíamos para a cerimónia religiosa na igreja da freguesia. O problema começou, antes de sairmos de casa, quando o futuro sogro me pediu para irmos à loja provar o vinho que iria ser servido ao almoço.
Ele tinha muita confiança na minha opinião, em tudo o que fosse relativo à vinhaça e eu muito orgulhoso por isso. Por nada deste mundo recusaria essa oportunidade, sabendo que a pinga desse ano era de muita qualidade.

Na adega, toca de arregaçar mangas e, de verruma na mão, furo feito no abençoado pipo espicho se deu. Do barril saiu uma vinhaça de bradar à realidade. Para ter a certeza da sua qualidade fizeram-se várias aferições que todas aprovaram de excelentes. De perfeito acordo entre genro e futuro sogro.

O resultado disso foi ter caído num vazio mental que durou bastante tempo. Começou ainda antes da caminhada de casa da noiva até igreja, durou toda a cerimónia na igreja e no retorno a casa nada ficou. Tudo em branco. O padre Albino, que nos casou não deu por nada, aceitou “ajuntar-nos” e, mesmo sem eu saber a doutrina, e os nossos pais, porque éramos de menoridade, deram autorização. Durante todo esse tempo eu estive ligado ao automático.

Felizmente o meu ex-mestre de trabalhos manuais e querido amigo Manuel da Fonte, generosamente se ofereceu para ser o fotógrafo do casamento e registou tudo aquilo que me escapou, depois vi e gostei.

As fotos confirmam até aos dias de hoje a história dum casamento que me escapou por culpa do meu sogro, isto é verdade.

Quando dei por mim estava sentado à mesa a almoçar, com muito bom aspeto, pertinho da noiva e com os convidados e familiares à nossa volta todos satisfeitos da vida. Ninguém notou o meu apagão incluindo a querida noiva! Rapazola de pinta, aquele noivo!

Foi uma “festa & peras”! Acreditei então que devia de estar casado, pois os sogros não estavam com o olho em cima de mim como era costume. Era um mau hábito deles.

As prendas de casamento para evitar complicações, eram quase todas iguais e compradas na Casa Águeda. A típica caneca de vidro e seis copos.

De papo cheio, mala feita, a meio da tarde apanhamos o comboio para o Porto onde íamos passar a lua-de-mel. De Viana a Nine a viagem correu sem incidentes. Mas, para azar nosso, nesse domingo, o Porto jogou em Braga, este ganhou e os tripeiros retornavam a casa com a alma cheia de tudo e a barriga cheia de vinhaça. Entrou gente no comboio para todo o lado. Ficou cheio demais. De Nine até ao Porto, foi tudo a monte, até com alguns sentados no colo uns dos outros!

A gripe asiática estava em força em Portugal.

Chegamos ao Porto vivos, tudo bem até ao hotel, mas o sono era tanto que entrei no quarto já com as calças aviadas e o pobre porteiro que levava as malas ficou de olho arregalado. Não sei porquê, mas dormiu-se pouco!

Tivemos uma lua-de-mel muito curta, porque os tripeiros ofereceram à noiva a gripe o que obrigou, dias mais tarde, a se ter de fazer uma atualização. Nada se perdeu.

A partir de então vivemos uma vida em comum de tudo do que melhor se pensa, e que ainda perdura neste ano em que celebramos sessenta e três gloriosos anos de casados. Somos muito felizes.

Aos amigos e familiares que connosco estiveram naquela data lhes dedicamos esta sincera recordação.

Obrigado a todos e …… até logo.
Eduardo & Lila