“O Pastor Ferido” é o título de um livro cujo autor, Austen Ivereigh – jornalista e escritor inglês, doutorado em Oxford em catolicismo e política argentinas – acaba de publicar (finais de 2020). Este jornalista é também o autor do livro “Francisco, O Grande Reformador”, editado em 2015.

Dos dois títulos se pode concluir, desde já, muita coisa, sendo que a principal é o ataque à pessoa de Jorge Bergoglio, cujos adversários, para não dizer inimigos, usam de excessiva agressividade intelectual para com o Papa Francisco, a quem pública e desrespeitosamente tratam por “Bergoglio” e não por Papa.

As obras publicadas são, à boa maneira inglesa, muito densas de conteúdo, mas, para quem não tiver tempo para as ler, eu sugiro a visita ao “You Tube” (internet) e queiram fazer a busca deste assunto por “Frei Tiago de S. José, Monte Carmelo”. Trata-se de um frade brasileiro, do Ordem dos Carmelitas, que – diga-se a propósito – é bem-falante e dispõe de dispositivos de comunicação com tecnologia altamente eficiente. O formato da comunicação é tipo palestra. O Frade Tiago é discípulo confesso do Monsenhor Carlo Maria Viganó, um Bispo italiano, mais conhecido pela sua carreira diplomática, principalmente nos USA. Foi este Bispo que escreveu, em finais de Agosto de 2018, uma carta aberta ao Papa Francisco, pedindo a demissão do próprio papa.                                                                                                                                                                                                                           Portanto, os dois adversários do Papa mais conhecidos (para brasileiros e portugueses, embora o Monsenhor fale essencialmente em inglês, como língua não materna), são estas duas figuras da Igreja Católica, mas é facilmente deduzível que estão organizados em muitas partes do mundo católico, a começar nos Estados Unidos. O Frade Tiago classifica o próprio grupo de “conservador e seguidor da doutrina cristã segundo a tradição da Igreja Católica, Apostólica, Romana” (Lembremos que “católica” quer dizer universal, que “apostólica” significa que é a legítima herdeira dos apóstolos e, como “romana”, obedece à Santa Sé de Roma e ao Papa aí residente.

Mas, assim sendo, este grupo anti-papa Francisco não tem a mínima coerência. Isso é evidente. Assume-se como católico impoluto e considera o Papa Francisco como um “anti-papa”? É que, na cabeça dessa gente fanática, o Papa Francisco “não foi escolhido legitimamente porque, desde o início do Concílio Vaticano II (1962), os títulos de Católica e Apostólica deixaram de se aplicar a esta Igreja”. De 1962 até à eleição do Papa Francisco, o referido Frei Tiago de S. José chama-lhe a Igreja Conciliar e, no conclave de 12/13 de Março de 2013, que elegeu o Papa Francisco, a Igreja Católica passou a denominar-se (pelos tais fanáticos) como a Igreja Bergogliana.

Em resumo, (e se estou a interpretar bem as palavras do dito Frade Tiago) a doutrina deste grupo anti-Papa Francisco foi rebuscada nos princípios preconizados pelo Bispo Lefebvre, que não concordando com algumas decisões do Concílio Vaticano II, fundou, em 1970, a chamada Fraternidade Sacerdotal, em Ecône, Suiça, entrando em dissidência com a Santa Sé e os vários Papas que se seguiram. Ou seja, como conservadores renitentes, tudo o que é antigo é que é bom, garantindo que “eles próprios são os genuínos cristãos católicos”.

O Papa Francisco e a Cúria Romana poderiam usar da sua autoridade para silenciar esse grupo rebelde, usando a figura canónica da excomunhão (expulsão) ou outras medidas disciplinares menos pesadas, mas creio que não o farão. Se o fizessem, seria utilizar meios draconianos contra a liberdade de expressão e transformar em vítimas uns tantos extremistas. Na história da Igreja Católica já bastam as páginas horrendas da Inquisição e das perseguições aos que pensavam e praticavam de maneira diferente.

As propostas do Papa Francisco são claramente evangélicas e uma tentativa de retornar aos princípios do Cristianismo primitivo (séculos I a IV, ao contrário dos posteriores), embebendo-se da verdadeira mensagem de Jesus Cristo. Na verdade, com o poder, o fausto, a riqueza, a luxúria, o Cristianismo foi engordando (e desconjuntando), só conseguindo manter o poder, posteriormente, à custa de uma crueldade inimaginável. O principal objectivo deste Papa, no seu papel reformador, é humanizar a Igreja. Mas se estes debates existem, agora por todo o mundo – só não sabe nem vê quem não quer – é inaceitável que, em Portugal, se viva um cristianismo excessivamente formalista e legalista e, por outro lado, substancialmente amorfo e desinteressado.