Ao contrário do que se possa pensar, não tenho muitos amigos. Também não são muitos os conhecidos.

Como a maioria dos idosos, vivo em silêncio e solidão; e em solidão e silêncio, decorrem as minhas horas.

Verdade é, que todos os dias, vou tomar o cafezinho, acompanhado de minha mulher, na cafetaria da nossa avenida; e passeio, quase diariamente, pela baixa, observando tudo: casas, montras, viaturas, pessoas…

Possuo, todavia, nas minhas estantes punhado de bons amigos mudos, prontos a revelar-me novos horizontes.

Passo horas esquecidas a lê-los, a dialogar, a refletir, a anotar os pareceres, que me transmitem.

São ilustres amigos, escolhidos na floresta dos livros: famosos cientistas, sociólogos, historiadores, evangelistas, filósofos, psicólogos, escritores e poetas, que abrem-me janelas ao pensamento, que só por si, não podia alcançar.

São companheiros fiéis, de infinita paciência. Ensinam-me, como professores, alimentando-me espiritualmente; tão bondosos são, que admitem discórdia, sem enfado, por duvidar da sapiência.

Em companhia de tão ilustres, dia e noite, vou-me enriquecendo, em conhecimento, fornecendo elementos, para exprimir-me melhor e com mais clareza.

Por vezes, sentado comodamente, na banca de trabalho, delicio-me com a prosa saborosa e vernácula, de clássicos; ou embebido nos fabulosos enredos de novelas, vivo outras vidas e outros mundos.

Outras ocasiões, fico em silêncio, refletindo e divagando num proveitoso monologar. Chegando a pensar, se sou eu ou eles, que falam por mim.

Não há, para mim, nada que se compare ao prazer da leitura. O livro, dá-nos o que o cinema e TV, não nos dão.

O romancista, sugere, permitindo ao leitor, fantasiar: cenário, a luz, a beleza da paisagem, a cor…

No cinema, a participação do espectador, é passiva. O prato é servido pronto. Não há imaginação!

Criar, fantasiar, adivinhar a fisionomia das personagens, as reações, os sentimentos, dos que se encontram encerrados no livro, concede-nos liberdade e encanto.

Como disse, não tenho muitos amigos, mas, nas minhas estantes, encontro uma imensidade de intelectuais, que me permitem horas de prazer, revelando-me conhecimentos e experiências de vida.

A todos estou grato; a todos sou devedor.