Hoje vou apresentar-vos dois expendidos textos que me pareceram excelentes para demonstrar o que é a vida: um é um extrato do magnífico sermão do Padre Manuel Bernardes, “Prática do Domingo da Sexagésima”, outro de Guerra Junqueiro, “Musa em Férias” (No Boulevard).

A maioria de nós, sempre atarefados com problemas próprios, raras vezes paramos para meditar no que é a vida.

Só quem observa o homem, sua vaidade, sua cobiça e inveja, a ânsia de ser importante, famoso, admirado pelos demais, é que pode compreender verdadeiramente o que é a vida.

Mas vamos ao admirável sermão de Manuel Bernardes:

“ (…) Aqueles cantam, dali a pouco choram; estoutros choram, daqui a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo, paredes meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá destratam; aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram…

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. Que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exercito que  vai a uma de duas causas, ou a morrer ou a matar. E sobre que? Sobre que dois palmos de terra são de cá e não são de lá. E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios que vão buscar muito longe cousas que piquem a língua para comer mais, cousas que afaguem a pele, cousas que alegrem os olhos, isto é especiarias, sedas, ouro, etc.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertires os olhos, dali a nada tudo acharás virado. O rico já é pobre, o mecânico já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas.

Já são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajes, outras leis, outros homens…tudo passará!”

 

E, para terminar, o que escreveu Guerra Junqueiro sobre a vida e o comportamento humano:

 

“O ponto essencial é não trazer grilheta.

Uma camisa branca, uma consciência preta.

Um ar pouco sério, um nome, algum dinheiro,

Eis tudo que se exige a qualquer bandoleiro

Para apresentar a farsa desta vida.

A virtude consiste em ter folha corrida.

A moral é um blague; apenas se suporta

Num drama ou num sermão; de resto é letra morta.”

 

(No Boulevard) – in “Musa em Férias”.

 

 

Infelizmente, a vida é isto! Uma comédia ou farsa, mutações de mascara, teatro. Vive-se a representar, a jogar com palavras e ilusões, mentiras, hipocrisia e meias verdades.

Assim rola a vida, como se não houvesse outra Vida…