O cenário outonal começou a aparecer no panorama atmosférico.  São as despedidas do Verão numa apoteose de alegria e de recordações. É

nesta quadra temporal que o vinho novo ferve nos lagares e as canti­gas do pessoal sobem para o ar, por entre vinhedos, a vindimarem os saborosos cachos de uvas.. É  a terceira estação do ano que possui mais encantos. Alia o sentimental e poético ao realista e prático. Amarelecem as primeiras folhas a dobrarem-se para o chão. As andorinhas preparam-se para partir. A paisagem adquire, ao cair da tarde, uns tons vagos, indecisos, melancólicos, carregados de penumbra. Nos campos, onde o Ve­rão ainda tem alguns fulgores de grandeza, as árvores tomam atitudes estáticas de aguarela. A luz é mais doce, mais pálida e os recortes das serranias são mais esbatidos.

Esta estação, por norma, põe um ponto final nas férias e nas vilegia turas. Acabam as curas de água e as estadias na praia. Para diante é

o trabalho e o estudo os únicos aspectos sérios a enfrentar. Depois, novamente, tudo se modifica com a chegada do Estio. A vida é uma constante rodagem de laços infatigáveis…

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Após um período de descanso pelas praias, termas ou outros luga­res de veraneio, mas bastante limitado devido à pandemia, tornava-se imperioso iniciar o trabalho. Agora, era muitíssimo diferente. No passa do, previa as canseiras do estudo, para na altura própria realizar uns proveitosos exames. Presentemente, surgiam as preocupações do primeiro emprego.

Assim, corriam, em tumulto, estes pensamentos na mente de um jovem professor, a aguardar, com ansiedade, o local da colocação para ministrar o ensino aos primeiros anos de escolaridade. Face ao seu actual estatuto, de certeza que não ficaria na zona urbana, ou nas suas periferias. Possivelmente, iria trabalhar numa aldeia mais ou me­nos distante e até, talvez, encravada na serra.

No calendário do tempo apareceu o esperado provimento. O alvará de nomeação indicou-lhe uma região de povo bom, simples, respeitador

e amável, que sabe como poucos encher de alegria os lugares onde habi­ta. Povoação no sopé da serra, carregada de tradições, com destaque para as típicas romarias, os cantares, os trajes e as danças, tudo consubstanciado com uma excelente gastronomia caseira, esperava-o para fa-

zer luz no espírito das suas crianças.

No primeiro dia de estada, hospedado na casa de um abastado lavrador, quando despertou, o sol entrava, impetuosamente, pela janela do seu quarto. Abriu-a, respirando o ar puro e fresco daquela manhã campestre, que lhe trazia o cheiro do vinho novo a tomar outra forma em ebulição nos lagares.

Podia observar, ao longe, daquele ponto, quase todos os encantos da aldeia. Via-se um tapete de verdura, tendo como fundo altos montes cobertos com frondosa vegetação. A água de um riacho, rodeado de sal­gueiros e amieiros, onde a poluição ainda não chegara, movimentava-se, sem pressa, através da planície. Campos de milho, algum por ser cortado, pomares, hortas, vinhas, imprimiam ao ambiente uma nota de satisfação, que mais parecia a natureza a dar-lhe as boas vindas. Ao perto, perante o azul do firmamento de uma cor bem penetrante, àquela hora crepuscular, debaixo daquele cenário maravilhoso, erguia-se, na frente dos seus olhos, um jardim de trato campesino, que despontava entre palmitos, choupos e algumas árvores frutíferas, tudo situado na sequência do portão de en­trada da quinta e constituído por diversos tipos de verdura e as mais variadas espécies de flores, apresentando-se, algumas, já bastante es­batidas devido à época outonal. A casa era do estilo à antiga portugue­sa, composta por dois corpos, toda caiada de branco, com uma escada ex­terior, em pedra, e o alpendre sustentado por colunas trabalhadas com certo estilo, destacando-se o puro granito das padieiras das portas e janelas onde sobressaíam ornatos de formosura, que no conjunto com a cobertura de telha canudo bem tratada, formava, tudo, um conjunto de viso acolhedora, cativante, porque extravasava o vulgar que existia naquele ambiente serrano, mas inorivelmente belo.

Na hora própria, dirigiu-se para a escolar. Ficou rodeado de crian­ças. Umas pegavam-lhe na pasta, outras pediam a chave para abrir a porta. Todas queriam ser amáveis. E também não passou despercebido a cer­tos olhares discretos, que o espreitavam, de quando em quando, por en­tre os vidros de uma janela, na sala ao lado, já adaptados àquele meio rural.

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O tempo decorria… A colega, certa tarde, resolveu visitar uma capela que se venerava no alto da montanha, por cima daquela freguesia serrana. Viam-se, em volta da ermida, alguns ciprestes de porte esguio, a mostrarem vontade de crescer até ao céu, que oscilavam perante forte ventania. A circundar toda aquela elevação desenvolviam-se frondosos castanheiros, que na época do calor proporcionavam sombras bucólicas, junto de fontes marejantes, além de produzirem a gostosa castanha. Nos espaços adjacentes erguiam-se vistosas cerejeiras carregadas, na Pri­mavera, de minúsculas flores a exalarem um perfume agradável e aromá­tico, parecendo imitar estrelas a alegrarem o universo da terra, onde as abelhas vinham colher o seu pólen para, depois, o converterem em mel. Mais tarde, essas arvores floridas, transformavam-se, como por mi­lagre da natureza, aparecendo, então, os saborosos frutos carnudos e avermelhados.

Encontrou-a sentada no muro que rodeava o adro, fitando o azul, um pouco esmorecido, do horizonte, como se nele procurasse qualquer opinião para acabar com a luta que dentro dela se travava. Avolumava-se, a coincidência, formada desde o início. As conversas desenvolvidas en­tre os dois, tinha-as bem presentes.

Recordou:

  • Passeava numa avenida da cidade cosmopolita onde estudava. A certa altura, ao atravessar uma passagem para peões, o tacão alto de um dos sapatos prendeu-se num dos carris do metropolitano que circulava à superfície. Puxava, puxava, mas não havia meio de obstar àquela posição incómoda e deveras ingrata. Apareceu o sinal vermelho. O metro, de mo­do veloz, aproximava-se. Um jovem que passava, na altura, repentina­mente, ajudou-me, conseguindo afastar-me daquela posição sinistra. Apresentamo-nos. Estendi-lhe a mão, que ma Com toda aquela atrapalhação não se fixaram nomes. Agora, não restam dúvidas…

O ambiente que os rodeava deu-lhe forças para recalcar certos pen­samentos, aliados a possíveis receios e, ao mesmo tempo, alicerçar me­lhor a decisão a tomar. Tinha que optar entre o presente e o ausente, enfrentando a vida.

– Ainda recusa a minha proposta ? – Perguntou, a certa altura o professor.

Depois de um repassado silêncio, respondeu:

– Talvez…

Escurecia… Os pássaros, chilreando, escondiam-se entre a folha­gem do arvoredo. Mais em baixo, no sino da igreja paroquial tocavam as trindades. Abandonaram o local. Caminhavam, passo a passo, de mãos da­das, relembrando a cena ocorrida, que em ambos os corações, agora, se encontrava palpitante…

 

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.