Há anos atrás, não muitos, ouvi de um médico, pai de família, que um seu filho, por benéfica  influência de um colega de escola, desejava entrar no chamado Corpo Nacional de Escutas (CNE), uma organização escutista sob a tutela da Igreja Católica. Lembremos que o escutismo foi criado, nos princípios do Século XX, pelo inglês Robert Baden Powell, que era um dos muitos filhos de um pastor protestante. Não consta que esse general do Exército Britânico tenha cobrado qualquer quantia, designadamente por direitos de autor, a quem copiou essa felicíssima ideia, designadamente à Igreja Católica Portuguesa e resto do mundo.

No entanto, o jovem filho do médico, meu conhecido, recebia a triste notícia de que não podia fazer parte dessa organização escutista porque o rapaz não era batizado e não frequentava a igreja paroquial da terra. Em resumo: não era formalmente católico. E quando eu apresentava, numa reunião de casais católicos e presidida por um sacerdote, esta questão como um exemplo negativo do que deveria ser uma pastoral aberta e acolhedora, logo o padre ultraconservador atalhou a sentença: os regulamentos do CNE só permitem a entrada a católicos batizados.

O que é triste é saber-se que, na teoria e na prática, o catolicismo está corrompido por atitudes de poder temporal da igreja, de clericalismos mofentos e por uma insensatez que brada aos céus. Numa minha crónica anterior, sob o título “Ama e faz o que quiseres”, escrita em 1 de Dezembro de 2020 e publicada uns dias depois neste semanário, fiz notar que a Igreja Católica, apenas em dois códigos – o Catecismo e o de Direito Canónico – reunia precisamente 4617 artigos ou cânones, para além de muitos anexos. Mas, infelizmente, esqueci-me dos códigos de procedimento na administração de sacramentos e a liturgia de inúmeras cerimónias. Não sei se vou exagerar (porque, na realidade, não compulsei todo esse colossal conjunto de leis, regulamentos ou o equivalente às portarias dos governos), mas “a coisa”, por junto, deve rondar outros tantos quatro mil e tal preceitos, ou seja, no total pouco deve faltar para os 10 mil “mandamentos”. Em resumo: os teólogos, os biblistas, os exegetas e os legisladores, há muitos séculos que vêm ignorando estes brilhantes ensinamentos de Jesus Cristo e acham que as leis precedem os homens na hierarquia dos valores. (ver Evangelho, segundo Marcos, capítulo 2)

Esta cultura tabeliónica terrena (habitual nos negócios deste mundo) bloqueia fortemente a dinâmica pastoral e destrói a essência de qualquer religião que tem por  principal missão (se não mesmo única) “a ligação a um ente superior, a Deus, em espírito e verdade”. A comunicação social noticia, recentemente, que, em Portugal e na Igreja Católica, nos últimos 20 anos, ou seja, desde a entrada no Século XXI, perdeu 973 sacerdotes, restando uns 2530, na maioria idosos. Este é mais um indicador que daria para profunda reflexão e consequentes resultados, mas, em Portugal (pelo menos) não se vê nada. Na Alemanha, vem-se realizando, desde 2019, o chamado Caminho Sinodal, o qual debate, em total abertura e respeito por todas as opiniões, com o clero e grande participação de fieis leigos (a maioria, diga-se), um conjunto atualíssimo de temas escaldantes: poder e participação na Igreja, sexualidade e amor nas relações humanas, vida sacerdotal e celibato, lugar da mulher nos serviços e ministérios da igreja. Mas há outros temas. A participação tem sido calorosa e viva.

Talvez este bom exemplo do Caminho Sinodal na Alemanha tenha inspirado o Papa Francisco para a realização de um novo Sínodo a nível global. E o lema até poderia ser este: “O que interessa a todos deve ser tratado por todos”.